A buzina soou em frente de casa me tirando da distração que me encontrava. Cheguei a me assustar. Era o primeiro sinal de que eu teria que encarar um monte de chatices pela frente: professores, aulas intermináveis, gente chata… mesmo assim não me deixei abalar. Terminei o café e enquanto lavava a louça que usei, Mike reclamava:
— Mania desgraçada! Os vizinhos já andam reclamando Allan. Outro dia o Seu Carlos me parou na rua só pra falar sobre isso. Vê se fala pra esse teu amigo maneirar com a buzina. Nem todo o mundo acorda no nosso horário e tem muitas crianças que moram por perto e ainda estão dormindo.
Eu disse que tentaria. Até parecia que Mike não conhecia o Eddie. Cara teimoso, você podia falar umas cinqüenta vezes a mesma coisa que não adiantaria. Era perda de tempo. O pior de tudo é que Mike estava com a razão e principalmente o Seu Carlos que tinha um bebê de cinco meses. Eddie exagerava, tocava a buzina um milhão de vezes, como se eu fosse surdo. E aquela buzina era estridente, irritante…
Antes de sair dei uma última olhada em Mike. Ele estava abocanhando os malditos ovos e apenas acenou um tchau. Mamãe eu não sabia aonde tinha se metido e não deu pra me despedir. Na certa estava na casa de alguma vizinha jogando conversa fiada. Todas as manhãs, antes de abrir o salão, cumpria esse ritual.
O dia estava lindo, o céu azul, azul. Não havia uma nuvenzinha sequer e o sol radiante. Meu humor identificava-se com o clima, ou seja, estava ótimo.
Avistei Eddie sentado no capô de sua Chevy vermelha, o cabelo castanho-mel um tanto comprido além da conta (sinceramente assemelhava-se com os cabelos daquelas mulheres crentes) e os olhos da mesma cor fixos em mim. Ele tinha uma aparência engraçada, não pelo modo como se vestia, pois muitos jovens costumam usar jeans rasgados e camisetas estranhas, mas sua aparência em si era engraçada. Não era um garoto feio, apenas estranho. A expressão do seu rosto, a maneira que falava, atropelando as palavras era tudo muito hilariante.
E seu comportamento também colaborava. Eddie era o tipo de cara que não estava nem aí com nada e não tinha o mínimo de educação. Falava alto, de boca cheia, arrotava e sempre soltava um palavrão na hora errada. Ficar deprimido ao seu lado era algo praticamente impossível. Sua companhia era muito divertida. Mas para ser amigo de alguém como ele é preciso muita coragem e senso de humor, pois Eddie era o tipo de cara que se você não tomar cuidado te faz passar vergonha. Eddie era um lixão. Mas eu o amava.
— E aí cara, tudo legal? – perguntei me aproximando e no momento que apertei sua mão cheia de anéis notei que vestia uma camiseta nova dos Ramones.
— Comigo, tudo. – respondeu com seu entusiasmo costumeiro estranhamente adormecido.
— Gostei da camiseta.
— Legal.
Eddie estava estranho. Sempre costumava falar mais que a boca e só falara a palavra “legal?” Aí tinha coisa… Se tudo estivesse normal, meu comentário sobre a nova camiseta daria, no mínimo, o trajeto até a escola. E agora tudo se resumia em “legal?!”
Entramos no carro e começamos a falar sobre um monte de coisas: a vitória do Chicago Bulls em cima do nosso idolatrado Los Angeles Lakers, a cara de bunda do novo professor de Literatura, os novos sucessos que tocavam na rádio e que eram umas bostas…
Foi aí que percebi que somente eu estava falando sobre um monte de coisas. Ele estava dirigindo calado o tempo todo enquanto eu falava pelos cotovelos. Eddie jamais ficava quieto. Não agüentava ficar sem falar uma besteira por pelo menos dez segundos. Bravo ele não estava. Geralmente quando estava bravo (sempre por motivos mínimos como ter perdido algumas fotos pornográficas de sua coleção ou quando seu pai negava-se, e com toda a razão, a lhe emprestar seu Corvette) ele xingava, rosnava e quase destruía a Chevy. De mau humor também não estava, quando isso acontecia (era muito raro) resmungava o tempo todo.
Eddie estava sério. Dá pra acreditar? Eddie sério!!! Nem ligar o rádio do carro havia ligado. Logo ele que não respirava sem música! Mesmo que tentasse disfarçar havia algo de muito estranho.
Definitivamente, Eddie estava estranho.
— Eddie, o que é que tá pegando, hein? – perguntei indignado por ter ficado falando sozinho feito um idiota. Fiquei curioso também.
— Nada, por quê? – foi só o que ele disse, me irritando ainda mais.
— Você está estranho. O que foi que aconteceu?
— Nada. Pelo menos comigo.
— Sem essa, cara! Eu te conheço. – me senti um pouco impaciente e notei que minha voz ficara um pouco mais alta. Não por irritação e sim, ansiedade. – Bravo sei que não está, senão eu já teria voado pela janela. De mau humor também não, senão já estaria surdo. Eddie, você está sério. Sé-ri-o! – soletrei quase gritando. Eu já estava desesperado.
— Eu, Eddie, sério? – indagou soltando um risinho sarcástico que não me agradou nem um pouco.
E fechando a cara novamente, disse:
— Não estou sério, só um pouco preocupado.
— Preocupado com o quê? Pô, cara, fala comigo, sou teu camarada. Sabe que pode confiar em mim.
— Posso é? – peguei certa ironia no ar.
— O que foi hein? – senti minha irritação retornando aos poucos. – Você está com algum problema?
Ele pareceu não ter recebido a pergunta muito bem. Num ímpeto virou para a esquerda e encostou o carro. Quase bateu nos outros automóveis que circulavam por lá. Senti um frio na barriga e pressenti que seria expulso pra fora do veículo sem ao menos ter a chance de saber o porquê. Eddie agiu de uma maneira como se eu tivesse lhe dado uma bordoada ou lhe chamado de bicha. Se me chamassem não me importaria, apenas ignoraria, mas devo informar que a pessoa em questão é um bocado machista.
Ele virou-se de frente pra mim, arqueou as sobrancelhas (isso significava indignação) e apoiou um dos cotovelos no volante dizendo:
— Se alguém aqui está com algum problema, esse alguém é você.
— Eu?! – exclamei – Por que eu?
— Ora, Allan! Não se faça de desentendido!
— O que foi que eu fiz? – não estava me fazendo de desentendido, não estava entendendo mesmo.
— Não entendo como você pode estar tão tranqüilo depois de tudo o que aconteceu ontem à noite.
— Ontem à noite? – o que havia acontecido, afinal? Eu não me lembrava de nada importante ou extraordinário da noite anterior.
— Vai me dizer que não se lembra? – duvidou.
— Não. – estava sendo sincero, embora não parecesse.
— Ótimo! Então eu refresco sua memória…
Eddie começou a relatar os fatos com uma rapidez impressionante e atropelando as palavras. É certo que esse era o seu jeito, mas quando estava ansioso ou tenso o negócio se agravava. Sem exageros, Eddie deixaria qualquer locutor esportivo roendo-se de inveja.
— Vou contar tudo detalhadamente sem deixar escapar nada.
Era tudo o que eu queria.
— Não vou fazer esforço nenhum pra te poupar, contarei tudo do jeitinho que ocorreu, sem deixar passar uma vírgula.
E, enfim, desembuchou tudo de uma vez:
— Ontem à noite, eram mais ou menos umas sete horas, nós saímos da biblioteca, não sei se está lembrado, mas aquela asquerosa e enorme professora de Química nos mandou fazer um trabalho sobre: “As drogas e seus efeitos nocivos ao organismo” e fomos para minha casa. Tomamos banho e resolvemos sair, dar umas voltas e comer alguma coisa decente porque agora que minha mãe inventou de fazer dieta só acha-se “mato” em nossa geladeira. – referia-se às alfaces, repolhos e demais verduras e legumes. – No meio do caminho, quem encontramos? Tiffanny e sua insana turma! Não sei como se mete com aquela guria, mas também não tenho nada com isso, desde que não me afete. E ontem à noite me afetou. Como estávamos andando a pé, ela ofereceu uma carona naquele jipe detonado e nos convidou para uma viagem, que de jipe é que não era. Eu pulei fora e combinei de te encontrar na lanchonete que a gente sempre vai, se é que você ainda se lembra dela. – insinuou com sarcasmo. – Te esperei por pelo menos umas três horas. Minha bunda chegou a ficar quadrada. De repente vocês aparecem por lá, uns mais chapados que os outros. Tiffanny estava num estado crítico, a blusa desabotoada, o sutiã de renda negra à mostra e uma garrafa de cerveja na mão. A turma dela eu nem comento! Um chegou desmaiado no banco traseiro do jipe e você… você foi o pior!
Nesta hora tentei engolir a saliva, mas não deu. Minha garganta secou! E ele continuou:
— Cara, você tava pirado! Primeiro disse que tava num cemitério e que devíamos preparar seu caixão. Seus olhos estavam vermelhos e você mal parava em pé, cambaleava e caiu umas três vezes. A essa altura, Tiffanny e companhia tentavam se mandar. Eu cerquei a desgraçada e perguntei o que ela tinha feito com você. Na maior cara-de-pau ela respondeu: “Eu não fiz nada, quem fez foi ele. Tomou umas cervejinhas, fumou um baseado e aspirou um pó”. Em seguida a vagabunda se mandou, na maior. Quando dei por mim você estava atravessando a rua com o sinal aberto, driblando os carros. Os motoristas ficaram loucos e eu achei que você tava tentando se matar. Uma hora eu gelei, você chegou a sentar no capô de um carro que freou a força. Depois dessa não podia te deixar lá e tive que me enfiar no meio de toda aquela loucura também. Você ria compulsivamente enquanto eu passava o maior sufoco. E quando enfim eu consegui te trazer de volta à lanchonete, quem você avista numa das mesas? Helouise! – Helouise era uma garota que estudava conosco e que Eddie era simplesmente gamado. – Aí então você começou a chamá-la aos gritos dizendo que eu era louco por ela. Não sei como conseguiu, mas escapou de mim e foi até a garota. Você disse uma porção de bobagens pra ela, a única coisa que consegui escutar foi: “Se ele gostasse mesmo de você já teria tomado a iniciativa, assim como estou fazendo agora”. Eu, particularmente, acho que essa garota tem menos parafusos na cabeça do que você porque simplesmente caiu na sua conversa e vocês ficaram se agarrando ali mesmo, por aproximadamente mais umas três horas. Como já era de madrugada, achei melhor te arrastar dali, confesso que foi difícil, e te levar pra casa. Acontece que seu estado tava tão deplorável que não achei nada sensato deixar Mike e sua mãe te verem assim. O que foi que eu fiz então? Tomei um táxi e te levei até a casa do Jonathan, você tava tão mal que nem deu tempo de chegar até o banheiro e vomitou no carpete branco da sala do coitado. Coitado mesmo, imagina só, o cara já tava dormindo, a gente o acorda. Ele, com a melhor das intenções nos socorre e você ainda faz uma lavagem no carpete da sala do indivíduo! Haja paciência, né? Você apronta tudo isso e depois vem me perguntar se eu estou com algum problema? Ora, convenhamos…
Após ouvir aquilo tudo meu humor despencou como um suicida de um prédio. Agora algumas imagens vinham à minha cabeça, como eu no jipe da Tiffanny, eu cheirando aquele maldito pó… Não costumava me drogar, de vez em quando só fumava um baseado para me ligar. Mas cocaína… era a primeira vez. E se dependesse de mim, a primeira e única. Experimentei só por curiosidade. Jamais iria me meter com aquela droga de novo.
Olhei para Eddie, ele estava debruçado no volante olhando o movimento dos automóveis que corriam de um lado para o outro e não parecia nada animado. Um terrível sentimento de culpa apossou-se de mim. Pôxa… Eddie era o meu melhor amigo, a gente cresceu junto naquele bairro. Era a única pessoa que me tratava de igual pra igual. Nunca me rebaixou por ter uma casa melhor (e bem melhor!) do que a minha, nem por se vestir melhor do que eu. Nem mesmo quando éramos crianças, ele nunca, nenhuma vez me excluiu do grupo como todas as outras criancinhas ricas faziam. Também me apoiou muito quando estava com problemas. Tanto ele quanto sua família. Eles me tratavam de uma forma incrível, eu recebia muito mais atenção lá do que em meu próprio lar.
Sempre que a barra pesava, Eddie estava pronto pra me ajudar, ele nunca me deixou em apuros. Quando mamãe bebia demais e eu estava com medo de ficar em casa, era pra casa dele que eu ia. Quando o William queria me espancar, era lá que me refugiava. Até mesmo quando mamãe começou a namorar o Mike e não queria cruzar com ele, dormia lá. Eddie era uma pessoa e tanto…
E agora essa sacanagem! Eu sempre soube que ele era louco pela Helouise, aliás, eu era a única pessoa que sabia. Ele achou melhor manter tudo em segredo até tomar coragem e chegar nela. Porque Eddie era assim, mulherengo, sem vergonha, não perdia uma farra. Mas quando se interessava por alguém levava muito a sério. Ele considerava Helouise especial e eu sabia disso.
Eu me sentia tão mal, tão podre… O cara confiou em mim e por causa de um pó desgraçado eu traio a confiança do meu melhor amigo, esculhambo os planos afetivos dele. Juro por minha vida, nunca mais queria saber daquela merda. Naquele momento eu só tinha uma coisa a fazer, pedir:
— Desculpa. – mesmo sabendo que não merecia suas desculpas. – Desculpa Eddie, eu não queria. Tente entender, eu não sabia o que estava fazendo. Quando a gente cheira aquele pó…
—… não precisa explicar nada, Allan. – me interrompeu. – Eu já cheirei pó e sei muito bem o que acontece. A gente fica fora de órbita.
— Você já cheirou pó?! – me espantei. – Quando?
— Há alguns meses atrás. Só que fui mais sensato do que você, cheirei na minha casa, quando meus pais estavam viajando, para evitar qualquer tipo de encrenca. Não saí por aí complicando a vida dos outros e muito menos a minha. Porque a sua, brother, depois da noite de ontem, nunca mais será a mesma.
— Nem sei o que dizer cara. Eu me sinto tão mal…
— Não esquenta! Quanto a mim, não esquenta. Afinal, não é a mim que você deve explicações e sim, à Tina.
— Tina?!! – um calafrio terrível passou por mim, como se um espírito ruim atravessasse meu corpo.
— Ah… esqueci deste pequeno detalhe! Tina estava na lanchonete.
— Vo-você está me dizendo que Tina estava co-conosco e v-viu tudo?! – gaguejei.
Eddie assentiu com a cabeça, fechando os olhos e dando um sorrisinho de “lamento informar”. Eu não podia acreditar no que tinha ouvido, deveria estar enganado. Mas o frio na espinha e o tremor em minhas mãos me contradiziam.
Era uma tragédia. Tina era nada mais nada menos que minha namorada!