quinta-feira, 26 de julho de 2007

Episóido 5 - This is Radio Clash

— Me diz uma coisa, porque justamente ontem você resolveu experimentar cocaína? Ficou empolgado com “as drogas e seus efeitos nocivos ao organismo?” Te juro cara, essa pesquisa me traumatizou. Agora tenho medo até de chegar perto de um cigarro comum. – não acreditei que Eddie ainda tinha forças pra brincar! – Ora essa cara! – me deu um tapinha nas costas. – Não fica assim não. Pra tudo tem um jeito, menos pra morte e mulher feia.

Só mesmo ele para me fazer rir naquele momento. Eu sabia que estava chateado com toda a merda que aprontei, mas percebeu que fiquei realmente arrependido e por isso não me puniu, pelo contrário, disfarçou ao máximo sua decepção.

Acho que meu arrependimento não justificava em nada a minha atitude inconseqüente. Ele deveria ter me expulsado do seu carro e nunca mais me dirigido a palavra, só que ao invés disso, tentou me animar! A primeira coisa que fez foi ligar o rádio.

— Coloque numa rádio de rock. – pedi.

— Não vou colocar em nenhuma dessas estações. – informou pegando uma fita cassete do porta-luvas. – Tenho uma rádio especial. – sorriu.

Era uma fita de música punk. Colocou quase no último volume e cantou junto quase no mesmo tom. Eu apenas o observava. Eddie era um adorador da música punk, mas chacoalhava sua cabeça como um headbanger e o que era pior, dirigia desse jeito!

Minha cabeça começou a doer. Não por causa da música, mas por puro nervosismo. Talvez efeito tardio da “ressaca”… Estava morrendo de medo de chegar até a escola e encarar Tina. Sabia que jamais me perdoaria e eu não a ia condenar por isso. No meu ponto de vista nem Eddie deveria me perdoar. É como eu disse, ele era uma pessoa e tanto. Sempre fora.

Enquanto eu me perdia no meio de meus pensamentos, rumávamos para o colégio ao som de “This is radio clash”…

sábado, 21 de julho de 2007

Episódio 4 - Revelação bombástica pós-ressaca

A buzina soou em frente de casa me tirando da distração que me encontrava. Cheguei a me assustar. Era o primeiro sinal de que eu teria que encarar um monte de chatices pela frente: professores, aulas intermináveis, gente chata… mesmo assim não me deixei abalar. Terminei o café e enquanto lavava a louça que usei, Mike reclamava:

— Mania desgraçada! Os vizinhos já andam reclamando Allan. Outro dia o Seu Carlos me parou na rua só pra falar sobre isso. Vê se fala pra esse teu amigo maneirar com a buzina. Nem todo o mundo acorda no nosso horário e tem muitas crianças que moram por perto e ainda estão dormindo.

Eu disse que tentaria. Até parecia que Mike não conhecia o Eddie. Cara teimoso, você podia falar umas cinqüenta vezes a mesma coisa que não adiantaria. Era perda de tempo. O pior de tudo é que Mike estava com a razão e principalmente o Seu Carlos que tinha um bebê de cinco meses. Eddie exagerava, tocava a buzina um milhão de vezes, como se eu fosse surdo. E aquela buzina era estridente, irritante…

Antes de sair dei uma última olhada em Mike. Ele estava abocanhando os malditos ovos e apenas acenou um tchau. Mamãe eu não sabia aonde tinha se metido e não deu pra me despedir. Na certa estava na casa de alguma vizinha jogando conversa fiada. Todas as manhãs, antes de abrir o salão, cumpria esse ritual.

O dia estava lindo, o céu azul, azul. Não havia uma nuvenzinha sequer e o sol radiante. Meu humor identificava-se com o clima, ou seja, estava ótimo.

Avistei Eddie sentado no capô de sua Chevy vermelha, o cabelo castanho-mel um tanto comprido além da conta (sinceramente assemelhava-se com os cabelos daquelas mulheres crentes) e os olhos da mesma cor fixos em mim. Ele tinha uma aparência engraçada, não pelo modo como se vestia, pois muitos jovens costumam usar jeans rasgados e camisetas estranhas, mas sua aparência em si era engraçada. Não era um garoto feio, apenas estranho. A expressão do seu rosto, a maneira que falava, atropelando as palavras era tudo muito hilariante.

E seu comportamento também colaborava. Eddie era o tipo de cara que não estava nem aí com nada e não tinha o mínimo de educação. Falava alto, de boca cheia, arrotava e sempre soltava um palavrão na hora errada. Ficar deprimido ao seu lado era algo praticamente impossível. Sua companhia era muito divertida. Mas para ser amigo de alguém como ele é preciso muita coragem e senso de humor, pois Eddie era o tipo de cara que se você não tomar cuidado te faz passar vergonha. Eddie era um lixão. Mas eu o amava.

— E aí cara, tudo legal? – perguntei me aproximando e no momento que apertei sua mão cheia de anéis notei que vestia uma camiseta nova dos Ramones.

— Comigo, tudo. – respondeu com seu entusiasmo costumeiro estranhamente adormecido.

— Gostei da camiseta.

— Legal.

Eddie estava estranho. Sempre costumava falar mais que a boca e só falara a palavra “legal?” Aí tinha coisa… Se tudo estivesse normal, meu comentário sobre a nova camiseta daria, no mínimo, o trajeto até a escola. E agora tudo se resumia em “legal?!”

Entramos no carro e começamos a falar sobre um monte de coisas: a vitória do Chicago Bulls em cima do nosso idolatrado Los Angeles Lakers, a cara de bunda do novo professor de Literatura, os novos sucessos que tocavam na rádio e que eram umas bostas…

Foi aí que percebi que somente eu estava falando sobre um monte de coisas. Ele estava dirigindo calado o tempo todo enquanto eu falava pelos cotovelos. Eddie jamais ficava quieto. Não agüentava ficar sem falar uma besteira por pelo menos dez segundos. Bravo ele não estava. Geralmente quando estava bravo (sempre por motivos mínimos como ter perdido algumas fotos pornográficas de sua coleção ou quando seu pai negava-se, e com toda a razão, a lhe emprestar seu Corvette) ele xingava, rosnava e quase destruía a Chevy. De mau humor também não estava, quando isso acontecia (era muito raro) resmungava o tempo todo.

Eddie estava sério. Dá pra acreditar? Eddie sério!!! Nem ligar o rádio do carro havia ligado. Logo ele que não respirava sem música! Mesmo que tentasse disfarçar havia algo de muito estranho.

Definitivamente, Eddie estava estranho.

— Eddie, o que é que tá pegando, hein? – perguntei indignado por ter ficado falando sozinho feito um idiota. Fiquei curioso também.

— Nada, por quê? – foi só o que ele disse, me irritando ainda mais.

— Você está estranho. O que foi que aconteceu?

— Nada. Pelo menos comigo.

— Sem essa, cara! Eu te conheço. – me senti um pouco impaciente e notei que minha voz ficara um pouco mais alta. Não por irritação e sim, ansiedade. – Bravo sei que não está, senão eu já teria voado pela janela. De mau humor também não, senão já estaria surdo. Eddie, você está sério. Sé-ri-o! – soletrei quase gritando. Eu já estava desesperado.

— Eu, Eddie, sério? – indagou soltando um risinho sarcástico que não me agradou nem um pouco.

E fechando a cara novamente, disse:

— Não estou sério, só um pouco preocupado.

— Preocupado com o quê? Pô, cara, fala comigo, sou teu camarada. Sabe que pode confiar em mim.

— Posso é? – peguei certa ironia no ar.

— O que foi hein? – senti minha irritação retornando aos poucos. – Você está com algum problema?

Ele pareceu não ter recebido a pergunta muito bem. Num ímpeto virou para a esquerda e encostou o carro. Quase bateu nos outros automóveis que circulavam por lá. Senti um frio na barriga e pressenti que seria expulso pra fora do veículo sem ao menos ter a chance de saber o porquê. Eddie agiu de uma maneira como se eu tivesse lhe dado uma bordoada ou lhe chamado de bicha. Se me chamassem não me importaria, apenas ignoraria, mas devo informar que a pessoa em questão é um bocado machista.

Ele virou-se de frente pra mim, arqueou as sobrancelhas (isso significava indignação) e apoiou um dos cotovelos no volante dizendo:

— Se alguém aqui está com algum problema, esse alguém é você.

— Eu?! – exclamei – Por que eu?

— Ora, Allan! Não se faça de desentendido!

— O que foi que eu fiz? – não estava me fazendo de desentendido, não estava entendendo mesmo.

— Não entendo como você pode estar tão tranqüilo depois de tudo o que aconteceu ontem à noite.

— Ontem à noite? – o que havia acontecido, afinal? Eu não me lembrava de nada importante ou extraordinário da noite anterior.

— Vai me dizer que não se lembra? – duvidou.

— Não. – estava sendo sincero, embora não parecesse.

— Ótimo! Então eu refresco sua memória…

Eddie começou a relatar os fatos com uma rapidez impressionante e atropelando as palavras. É certo que esse era o seu jeito, mas quando estava ansioso ou tenso o negócio se agravava. Sem exageros, Eddie deixaria qualquer locutor esportivo roendo-se de inveja.

— Vou contar tudo detalhadamente sem deixar escapar nada.

Era tudo o que eu queria.

— Não vou fazer esforço nenhum pra te poupar, contarei tudo do jeitinho que ocorreu, sem deixar passar uma vírgula.

E, enfim, desembuchou tudo de uma vez:

— Ontem à noite, eram mais ou menos umas sete horas, nós saímos da biblioteca, não sei se está lembrado, mas aquela asquerosa e enorme professora de Química nos mandou fazer um trabalho sobre: “As drogas e seus efeitos nocivos ao organismo” e fomos para minha casa. Tomamos banho e resolvemos sair, dar umas voltas e comer alguma coisa decente porque agora que minha mãe inventou de fazer dieta só acha-se “mato” em nossa geladeira. – referia-se às alfaces, repolhos e demais verduras e legumes. – No meio do caminho, quem encontramos? Tiffanny e sua insana turma! Não sei como se mete com aquela guria, mas também não tenho nada com isso, desde que não me afete. E ontem à noite me afetou. Como estávamos andando a pé, ela ofereceu uma carona naquele jipe detonado e nos convidou para uma viagem, que de jipe é que não era. Eu pulei fora e combinei de te encontrar na lanchonete que a gente sempre vai, se é que você ainda se lembra dela. – insinuou com sarcasmo. – Te esperei por pelo menos umas três horas. Minha bunda chegou a ficar quadrada. De repente vocês aparecem por lá, uns mais chapados que os outros. Tiffanny estava num estado crítico, a blusa desabotoada, o sutiã de renda negra à mostra e uma garrafa de cerveja na mão. A turma dela eu nem comento! Um chegou desmaiado no banco traseiro do jipe e você… você foi o pior!

Nesta hora tentei engolir a saliva, mas não deu. Minha garganta secou! E ele continuou:

— Cara, você tava pirado! Primeiro disse que tava num cemitério e que devíamos preparar seu caixão. Seus olhos estavam vermelhos e você mal parava em pé, cambaleava e caiu umas três vezes. A essa altura, Tiffanny e companhia tentavam se mandar. Eu cerquei a desgraçada e perguntei o que ela tinha feito com você. Na maior cara-de-pau ela respondeu: “Eu não fiz nada, quem fez foi ele. Tomou umas cervejinhas, fumou um baseado e aspirou um pó”. Em seguida a vagabunda se mandou, na maior. Quando dei por mim você estava atravessando a rua com o sinal aberto, driblando os carros. Os motoristas ficaram loucos e eu achei que você tava tentando se matar. Uma hora eu gelei, você chegou a sentar no capô de um carro que freou a força. Depois dessa não podia te deixar lá e tive que me enfiar no meio de toda aquela loucura também. Você ria compulsivamente enquanto eu passava o maior sufoco. E quando enfim eu consegui te trazer de volta à lanchonete, quem você avista numa das mesas? Helouise! – Helouise era uma garota que estudava conosco e que Eddie era simplesmente gamado. – Aí então você começou a chamá-la aos gritos dizendo que eu era louco por ela. Não sei como conseguiu, mas escapou de mim e foi até a garota. Você disse uma porção de bobagens pra ela, a única coisa que consegui escutar foi: “Se ele gostasse mesmo de você já teria tomado a iniciativa, assim como estou fazendo agora”. Eu, particularmente, acho que essa garota tem menos parafusos na cabeça do que você porque simplesmente caiu na sua conversa e vocês ficaram se agarrando ali mesmo, por aproximadamente mais umas três horas. Como já era de madrugada, achei melhor te arrastar dali, confesso que foi difícil, e te levar pra casa. Acontece que seu estado tava tão deplorável que não achei nada sensato deixar Mike e sua mãe te verem assim. O que foi que eu fiz então? Tomei um táxi e te levei até a casa do Jonathan, você tava tão mal que nem deu tempo de chegar até o banheiro e vomitou no carpete branco da sala do coitado. Coitado mesmo, imagina só, o cara já tava dormindo, a gente o acorda. Ele, com a melhor das intenções nos socorre e você ainda faz uma lavagem no carpete da sala do indivíduo! Haja paciência, né? Você apronta tudo isso e depois vem me perguntar se eu estou com algum problema? Ora, convenhamos…

Após ouvir aquilo tudo meu humor despencou como um suicida de um prédio. Agora algumas imagens vinham à minha cabeça, como eu no jipe da Tiffanny, eu cheirando aquele maldito pó… Não costumava me drogar, de vez em quando só fumava um baseado para me ligar. Mas cocaína… era a primeira vez. E se dependesse de mim, a primeira e única. Experimentei só por curiosidade. Jamais iria me meter com aquela droga de novo.

Olhei para Eddie, ele estava debruçado no volante olhando o movimento dos automóveis que corriam de um lado para o outro e não parecia nada animado. Um terrível sentimento de culpa apossou-se de mim. Pôxa… Eddie era o meu melhor amigo, a gente cresceu junto naquele bairro. Era a única pessoa que me tratava de igual pra igual. Nunca me rebaixou por ter uma casa melhor (e bem melhor!) do que a minha, nem por se vestir melhor do que eu. Nem mesmo quando éramos crianças, ele nunca, nenhuma vez me excluiu do grupo como todas as outras criancinhas ricas faziam. Também me apoiou muito quando estava com problemas. Tanto ele quanto sua família. Eles me tratavam de uma forma incrível, eu recebia muito mais atenção lá do que em meu próprio lar.

Sempre que a barra pesava, Eddie estava pronto pra me ajudar, ele nunca me deixou em apuros. Quando mamãe bebia demais e eu estava com medo de ficar em casa, era pra casa dele que eu ia. Quando o William queria me espancar, era lá que me refugiava. Até mesmo quando mamãe começou a namorar o Mike e não queria cruzar com ele, dormia lá. Eddie era uma pessoa e tanto…

E agora essa sacanagem! Eu sempre soube que ele era louco pela Helouise, aliás, eu era a única pessoa que sabia. Ele achou melhor manter tudo em segredo até tomar coragem e chegar nela. Porque Eddie era assim, mulherengo, sem vergonha, não perdia uma farra. Mas quando se interessava por alguém levava muito a sério. Ele considerava Helouise especial e eu sabia disso.

Eu me sentia tão mal, tão podre… O cara confiou em mim e por causa de um pó desgraçado eu traio a confiança do meu melhor amigo, esculhambo os planos afetivos dele. Juro por minha vida, nunca mais queria saber daquela merda. Naquele momento eu só tinha uma coisa a fazer, pedir:

— Desculpa. – mesmo sabendo que não merecia suas desculpas. – Desculpa Eddie, eu não queria. Tente entender, eu não sabia o que estava fazendo. Quando a gente cheira aquele pó…

—… não precisa explicar nada, Allan. – me interrompeu. – Eu já cheirei pó e sei muito bem o que acontece. A gente fica fora de órbita.

— Você já cheirou pó?! – me espantei. – Quando?

— Há alguns meses atrás. Só que fui mais sensato do que você, cheirei na minha casa, quando meus pais estavam viajando, para evitar qualquer tipo de encrenca. Não saí por aí complicando a vida dos outros e muito menos a minha. Porque a sua, brother, depois da noite de ontem, nunca mais será a mesma.

— Nem sei o que dizer cara. Eu me sinto tão mal…

— Não esquenta! Quanto a mim, não esquenta. Afinal, não é a mim que você deve explicações e sim, à Tina.

— Tina?!! – um calafrio terrível passou por mim, como se um espírito ruim atravessasse meu corpo.

— Ah… esqueci deste pequeno detalhe! Tina estava na lanchonete.

— Vo-você está me dizendo que Tina estava co-conosco e v-viu tudo?! – gaguejei.

Eddie assentiu com a cabeça, fechando os olhos e dando um sorrisinho de “lamento informar”. Eu não podia acreditar no que tinha ouvido, deveria estar enganado. Mas o frio na espinha e o tremor em minhas mãos me contradiziam.

Era uma tragédia. Tina era nada mais nada menos que minha namorada!

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Episódio 3 - Eu e Mike

Toda vez que mamãe avisava que ele viria nos visitar eu arranjava uma desculpa para pular fora. Na maioria das vezes eu dormia na casa do meu melhor amigo. Fazia de tudo para não conhecê-lo, até que chegou um ponto em que ficou inevitável não nos encontrarmos. Dividíamos o mesmo teto.

No início não foi nada fácil e reconheço que por minha culpa. Eu não agia com infantilidade, não reclamava, nem nada. Apenas ficava na minha, falava o essencial e não dava confiança. Só que ficava aquele clima pesado devido a minha frieza. Não conseguia aceitar a idéia de mamãe estar namorando novamente. Até que um dia eu estourei, cheguei até a jogar na cara o que tinha dito na última noite em que esteve com o russo. Disse que não era uma mulher de palavra, que não confiaria nunca mais no que quer que fosse que dissesse e que Mike tinha cara de cafajeste. Pode até soar egoísta. Acho que estava traumatizado, não sabia se suportaria ver mais um patife magoando minha mãe.

Não acreditei que aquele relacionamento vingaria, para mim, Mike só procurava alguns momentos de prazer e diversão com uma mulher bonita e ingênua. Porque mamãe era ingênua. Mesmo após ter apanhado tanto da vida ainda acreditava no amor e na benevolência das pessoas. Nunca botei fé naquilo. Muito menos depois que o conheci. Não me simpatizei nem um pouco e tentei passar pra mamãe o mesmo sentimento dizendo tudo o que pensava. Ela não deu ouvidos.

Será que não podia ver que o cara era mais um desses almofadinhas que tem de sobra por aí? E um almofadinha pra lá de chato que só sabia falar sobre política, economia e música clássica, a qual, por sua culpa me apaixonei. Aliás, foi a música que nos aproximou um pouco. Ele me apresentou Bach, Mozart, Strauss, Ravel, Beethoven. Eu lhe apresentei Doors, KISS, Black Sabbath, Rolling Stones, Ramones… pólos bem opostos. O importante é que eu gostei do que ele me mostrou e ele gostou do que lhe mostrei. Conversávamos apenas sobre esse assunto e mamãe, mesmo gostando apenas de Bob Marley, muitas vezes entrava na conversa. Mike tornou-se então, o cara para debater sobre música todas as noites. E não passava disso.

Percebi que a coisa tava ficando séria mesmo quando Mike mandou reformar nossa casa, ampliara o salão de beleza de mamãe e… pagara escola particular pra mim! Ele chegou a sugerir uma mudança de residência, estava até com uma casa em vista, num bairro mais simples, porém, uma casa maior. Só que mamãe não concordou, disse que aquela casa tinha um grande valor sentimental e que não a trocaria nem por uma cobertura em Beverly Hills. Duvido. Não é necessário contar que virei uma fera, não é mesmo?

Morávamos num bairro classe média, mas não éramos classe média. Éramos pobres. A casa era razoável, tinha um quintal grande e eu gostava de lá. Meu mundo era aquelas nove peças e aquele bairro onde nasci e me criei. Mesmo sabendo que aquele era meu mundo não conseguia me encaixar. Fazia parte daquele lugar e ao mesmo tempo não fazia. Eu me sentia excluído das outras crianças. Enquanto elas ganhavam brinquedos caros no Natal, eu passava fome na ceia. Enquanto viajavam para a Disney, eu passava as ferias trabalhando para ajudar minha mãe a comprar comida. Fiz de tudo, fui garçom, jardineiro, faxineiro… e sobrevivi.

Tinha que admitir que minha realidade era muito diferente. Se estava ali era porque minha avó tinha dado um ataque cardíaco e deixado a casa como herança. Sabendo que ela poderia ter nos deixado muito mais. Não cheguei a conhecê-la, no entanto, o que me contaram a respeito foi o suficiente para saber que era uma mulher tão forte e tão batalhadora quanto minha mãe. Depois de muitos anos puxados fez um bocado de dinheiro e conseguiu obter uma vida financeira estável. Porém, fez também muitos filhos para repartir os seus bens. Para nós só restou a casa.

Não dá para negar que Mike nos proporcionou um grande alívio financeiro. Desde que chegou não lembro de termos passado um dia sem ter fartura na mesa. Mamãe e eu nos esforçávamos muito para nos auto-sustentar e sustentar aqueles marmanjos que moraram conosco (com exceção do William, que também segurou a barra certa vez), mas apesar de todo o esforço, muitas vezes nosso almoço se resumia a arroz puro.

Com Mike isso nunca aconteceu, pelo contrário, ele e mamãe que arcavam com a comida e agora o dinheiro que eu recebia trabalhando era apenas para os meus gastos. Eu comprava roupas, sapatos, material escolar e ainda sobrava pra pagar minhas aulas de guitarra e gastar com alguma garota no cinema ou numa lanchonete.
Quanto à escola particular, foi maravilhoso. O ensino era muito melhor e eu comecei a me sentir incluído no mundo em que nasci. Graças ao Mike.

Não foi apenas financeiramente que as coisas mudaram. Mike deu uma reviravolta muito grande em nossa rotina e nossa vida. Era atencioso conosco, tratava super bem a minha mãe, só levantava a voz quando passava dos limites (e isso D. Alice sabia fazer melhor do que ninguém!) e me dava alguns sermões quando necessário. Não era como os outros caras que se achavam superiores e já chegavam tomando conta do pedaço. Se saía à noite, sempre levava a minha mãe, ou seja, probabilidades pequenas de traição. E o nosso ambiente familiar nunca mais foi o mesmo.

Ele não encostou um dedo sequer em nós. Antigamente, quando passava as noites em claro, podia ouvir o choro convulsivo de minha mãe do outro lado da parede por ter sido espancada pelo Carlos. Aquilo durava a madrugava inteira e me corroia por dentro. Com o William eu também passava as noites em claro. A única diferença é que o choro convulsivo partia de mim.

Com Mike não, tudo era diferente. Dava a mamãe o devido valor que sempre mereceu e me tratava como um filho. E olha que não estou exagerando. Ele agia como um verdadeiro pai. E um bom pai. Ele me ajudava com os deveres de casa, cuidava de mim quando estava doente, me acompanhava nos estádios, mesmo detestando futebol americano. Mas como todo bom pai tinha seus pontos negativos, impôs horários para chegar em casa, exigiu responsabilidades e sempre dava sua bronquinha na hora certa…

Com o passar do tempo comecei a vê-lo de modo diferente. De almofadinha passou a ser alguém o qual eu possuía uma grande admiração. No começo fiquei bastante desconfiado. Eu cresci ouvindo pra nunca confiar em ninguém, que se alguém faz algo de bom é porque deseja algo em troca. Então a situação chegou a um ponto em que não pude deixar de comentar. Foi quando eu tive uma febre muito alta e ele ficou sentado numa cadeira pra lá de desconfortável na cabeceira da minha cama a madrugada inteira, me vigiando, regulando minha temperatura a cada cinco minutos, enfiando aquele maldito termômetro na minha boca e botando compressas de gelo em minha testa.

— Mike, por que você me trata dessa maneira? – perguntei a ele com uma voz baixa de doente.
— Que maneira? – ele já franziu o cenho achando que estava fazendo alguma coisa errada. Sua preocupação refletia-se na pouca claridade que o abajur nos dava.
— Você sabe… - disse meio sem jeito. -… essa dedicação toda…
— Há algo de errado com isso?
— Não, não. Errado não seria a palavra correta. Esquisito talvez.
— Esquisito por quê?
— Sei lá… todos os meus padrastos eram uns estúpidos comigo. Um deles chegou até a me espancar.
— É, eu soube. Sua mãe me contou. – ele baixou os olhos – Sinto muito.
— Não sinta. Nem eu sinto. – menti.
— Tudo bem. Isso prova que é um garoto forte.

Eu sabia que ele fingia que estava acreditando.

— Isso não responde à minha pergunta. – pressionei.
— Você parece desconfiar de alguma coisa. – me olhou com o canto dos olhos.
— Mike, nem minha mãe me trata desse jeito. Veja, agora mesmo ela está sossegada…
—… enquanto você arde em febre. – interrompeu. – Allan, se as pessoas nunca te trataram desse jeito não quer dizer que você não mereça.

E após uma pausa, ele disse:

— Eu já tive um filho.
— E onde ele está?! – não sei se consegui disfarçar o espanto.

Provavelmente não. Mike olhou pra mim parecendo estar meio arrependido de ter aberto a boca. Após outra breve pausa, ele me responde:

— Morto. – seus olhos escureceram e eu senti uma leve depressão tomar conta de mim. – Se ele estivesse vivo, estaria com a sua idade: doze anos… - disse pensativo.

Agora as peças se encaixavam e pude ver as coisas com maior clareza. Mike fazia tudo aquilo por mim porque sentia-se bem fazendo. Se seu filho estivesse vivo era isso que faria por ele. Era simples de compreender. Mike estava projetando a imagem de seu filho através de mim. Não fiquei zangado, mas que havia algo mórbido nesse lance, havia.

— Allan, não quero que me interprete mal. Eu não estou te substituindo no lugar do meu filho. – explicou como se tivesse lido meus pensamentos. – Ninguém poderá substituí-lo porque ele era único. Assim como você também é único. Não vou negar que você preenche um pouco esse vazio que existe dentro de mim. Mas esse vazio sempre irá existir.
— É, mas pode ser amenizado. – falei com voz trêmula.
— Allan, entenda… você é uma pessoa muito especial. Jamais te usaria para coisa alguma. Não estou te usando para amenizar dor nenhuma. Eu adoro sua mãe e nunca faria nada que a magoasse. Tá certo que muitas vezes a gente discute, isso é normal. Você sabe, quando ela começa a dar aqueles gritos…
—… os típicos gritos histéricos! – falei rindo. Ele acabou rindo também.
— Isso mesmo… os típicos gritos histéricos. Mas acredite, eu nunca teria coragem de espancar a ela, nem a você. Aliás, eu nunca teria coragem de espancar ninguém, porque nenhuma pessoa tem o direito de fazer isso com outra. Isso não é hipocrisia. Vivo com vocês há seis meses e se fosse acontecer já teria acontecido. Eu gosto de vocês e os respeito muito. Sei que tem motivos de sobra para estar desconfiado. Eu não ligo. Sou paciente. Sei que com o tempo poderei provar a vocês que sou diferente.

Naquela madrugada senti pela primeira vez que alguma coisa tinha mudado e não consegui dormir. Fechei os olhos pra ele pensar que estava dormindo, bem que queria, mas os meus pensamentos não deixavam. Fiquei pensando nos meus ex-padrastos, na minha mãe e principalmente no que Mike havia dito. Se ele tivesse que provar alguma coisa seria apenas pra mim. Desde o começo mamãe dizia que ele era diferente. Só que não dava pra acreditar no que partia dela, porque toda a vez que tentava alguém novo dizia isso. Acho que dessa vez tinha acertado.

Vez ou outra eu abria disfarçadamente meu olho esquerdo para observá-lo e lá estava ele naquela cadeira, sem pregar o olho a madrugada inteirinha, apenas vigiando meu “sono” e olhando de cinco em cinco minutos pro seu relógio de pulso com medo de passar a hora dos meus remédios.

Aquilo tudo era tão novo pra mim, tão estranho… e tão bom. Senti uma segurança que nunca sentira antes. No início não simpatizei nem um pouco com ele e não concordava com aquele relacionamento, tentei passar o mesmo sentimento para mamãe. Sorte que ela não deu ouvidos. Definitivamente, Mike era diferente… mas bem que ele poderia deixar de lado essa droga de ovos com bacon de manhã, né?

terça-feira, 17 de julho de 2007

Episódio 2 - Café da manhã relembrando os maridos de minha mãe

Toda a manhã era a mesma coisa. Na metade do corredor já pude sentir aquele cheiro característico que infestava a cozinha. Mamãe no fogão preparando o mexido de ovos com bacon e Mike à espera na mesa, sorvendo alguns goles de café exageradamente adocicado. Dava pra ver a porção de açúcar no fundo da xícara. Eu não podia ver aquilo. Abri o armário, peguei uma xícara e enchi de café puro. Mike não podia ver aquilo.

Ele agora estava com um aspecto melhor ao que se encontrava ao lado da minha cama. Totalmente alinhado e até mesmo elegante. Usava calça e camisa social, gravata e sapatos mocassim. O cabelo com um leve toque de gel dando um efeito molhado, não lambido. Seu trabalho exigia que se vestisse assim, mas mesmo que não exigisse ele se vestiria dessa forma. Era o seu estilo.
Mike trabalhava no departamento pessoal de uma grande firma aqui de Los Angeles. Não sei que firma, só sei que era uma grande firma. Toda a vez que me deparava com Mike arrumado só uma coisa me vinha à cabeça: “Céus, esse cara é um yuppie!” Porém, uma coisa devo confessar, não sei o que havia me assustado mais, a faca cravando em mim no pesadelo ou ter dado de cara com Mike descabelado após haver aberto os olhos.

Cortei uma fatia de bolo de chocolate. Meu café da manhã era esse, uma xícara de café com um pedaço de bolo. Pode até parecer pouco, mas desde que Mike veio morar conosco, comer “tudo” isso era uma grande vitória. No começo, encarar em jejum aquele fedor de ovos com bacon embrulhava tanto o estômago que eu não conseguia colocar nada na boca. Esse era o ponto negativo de tê-lo conosco.

Ele era a quinta tentativa de casamento de mamãe e provavelmente a última. Acho que dessa vez tinha acertado. Apesar dos pesares, ela merecia, quero dizer, ela era uma chata, histérica, mandona, o protótipo da mulher que jamais desejei pra mim. Mas tinha que reconhecer que era uma pessoa batalhadora (após anos de trabalho duro conseguiu montar seu próprio salão de beleza sozinha, sem ajuda de homem nenhum) e muito perseverante. Principalmente para arranjar o marido ideal.
Todos os caras com que se envolvia eram uns tremendos babacas que não sabiam lhe dar o devido valor. O anterior ao Mike era um almofadinha arrogante com um nome esquisito que eu nunca soube decorar. Tinha vindo da Rússia e era podre de rico. Queria compromisso sério, papel passado e tudo. Seus planos era o de nos levar para a Rússia e dar-nos uma vida de rei. Mamãe vivia se perguntando o que ele tinha visto nela. Eu respondo. Minha mãe era uma mulher linda, quarenta anos num corpo de vinte, alta, lindos olhos verdes e lindos cabelos louros ondulados. E além de linda era talentosa e inteligente. Não tanto quanto Mike, não teve a chance de terminar os estudos, foi obrigada a dar duro cedo. O único diploma que possuía era o de cabeleireira. Mesmo assim não deixava de ser uma pessoa inteligente. As pessoas costumam pensar que só quem tem diploma é que tem inteligência, mas não é assim. Inteligência vem de berço. A escola é apenas um complemento. Minha mãe não teve muito desse complemento, mas entendia muitas coisas. Ela não era o tipo de pessoa com o dom de te matar de tédio com seu papo, posso até dizer que sua conversa era interessante e que jamais me deixou em situações embaraçosas (como a maioria das mães dos meus colegas) por causa da língua solta. Dona Alice era inteligente, não culta, mas inteligente.

Voltando ao assunto, mesmo não entendendo o que o almofadinha tinha visto nela, sentia-se extremamente feliz. Eu me sentia assustado. Apesar de toda a mordomia que me esperava, não conseguia me imaginar na Rússia, no meio de toda aquela formalidade e sem entender uma vírgula do que eles dizem. O ponto de vista dela era exatamente o contrário do meu, para ela, toda aquela frescura era o sonho dourado e sentia-se a própria Cinderela.
No entanto, seus castelos de areia se desfizeram no momento em que recebeu um telefonema anônimo em seu trabalho dizendo que ele a estava traindo e que se quisesse a prova que anotasse o endereço e fosse imediatamente para lá. Dito e feito. Mamãe flagrou seu príncipe encantado na cama de um hotel de luxo… com outro homem!

Até hoje não descobrimos quem fez essa maldade. Mamãe odeia quando falo dessa maneira, ela acha que quem ligou para o seu trabalho aquele dia lhe fez um favor, abriu seus olhos. Eu não penso assim. Acho que uma pessoa que tem uma atitude tão baixa como essa só pode ser uma infeliz que não quer ver a felicidade dos outros. Eu, particularmente, odiava o cara, mas não podia negar que ele a fazia feliz. Nunca tinha visto mamãe tão bem e satisfeita quanto na época em que estavam juntos. Se eu fosse uma pessoa egoísta, diria que seja lá quem fosse esse alguém que dedurou, fez um favor a mim, não a ela, afinal era um alívio não ter que deixar L.A. Mas pelo contrário, eu sofri tanto quanto ela.

Sua terceira tentativa foi o Johnny, feio pra burro, cabelo espetado e curto, branquelo, usava uns óculos com aros enormes… Mas até que o cara era legal e bastante inteligente. Tudo o que sei sobre mecânica de automóveis devo a ele. Passávamos horas conversando sobre motores, peças e muitas vezes ficávamos até altas horas da madrugada na garagem consertando máquinas velhas. Carros que entravam verdadeiras sucatas, com o toque mágico de nossas mãos saíam verdadeiros primores. A gente se dava muito bem e até planejávamos montar uma oficina. Acontece que mamãe o considerava um frouxo… não durou sequer três meses.

A segunda tentativa foi um tal de Carlos. Eu odiei aquele tipo. O cara era ridículo demais, típico mexicano do interior (pode até soar racista, mas desde que fui obrigado a conviver com esse cara quero distância do México), não sei o que mamãe viu naquilo. Mais feio que o demônio, parecia um bugre (parecia não, era) e possuía um bigode preto pra lá de grande que se perdia no meio da pele do rosto quase da mesma cor. Bastava abrir a boca para eu sentir vontade de sair correndo. Seu sotaque castelhano massacrando o meu inglês era uma ofensa. Típico cafajeste, traía minha mãe na cara dura, chegava em casa quase de manhã, bêbado (como todo “latin lover macho man” que se preze) e ainda por cima batia nela. Não sei como o suportou durante dois anos.

E, finalmente, a primeira tentativa foi o William. Não sei se ele foi o marido que ela mais gostou, só sei que foi o relacionamento que mais durou. Ficou com mamãe até eu completar oito anos. Segundo as mulheres, ele era um homem bonito, para mim, não passava de um alemão enorme que mais parecia um troglodita.

Ele trouxe muito aborrecimento para minha mãe com seu comportamento tirano e autoritário. Seu passatempo era me espancar. Até hoje possuo algumas marcas no corpo devido as suas chicotadas. Era um hipócrita nato, vivia pregando o valor da fidelidade e quando nos abandonou confessou que estava indo para a casa da amante a qual havia tendo um caso há mais de três anos. Ele também bebia, muito. Era um jogador compulsivo, se recebia algum dinheiro torrava tudo nos jogos. Seu maior sonho era ganhar uma milionária jogada e comprar um cassino em Vegas. Pode?

Confesso que sofri muito nas mãos desse cara, só que até agora não sei quem me fez sofrer mais, se foi ele ou o Carlos. O William me batia, batia bastante, mas nunca encostou um dedo em minha mãe. O Carlos já fazia o oposto, batia nela e não em mim. É muito duro para um garotinho de oito anos de idade ver sua própria mãe sofrendo, apanhando, sem poder fazer coisa alguma. Você se sente um inútil e até mesmo culpado. A vontade que dá é de estar no lugar dela e poupá-la dessa merda toda. É por isso que não sei o que é pior, apanhar ou ver alguém que você ama apanhando. Acho que a segunda hipótese é a mais provável…

Quanto ao meu pai, bem… eu cresci acreditando que era o William, mas aos seis anos de idade descobri de forma triste, pra não dizer trágica, que ele não era o meu verdadeiro pai. Na verdade, eu nunca tive a chance de conhecer meu pai, mamãe nunca gostou de tocar no assunto e eu resolvi não insistir. Tudo bem que eu tinha o direito de saber, afinal tratava-se de meu pai, meu progenitor, o homem que me meteu nessa droga de mundo… Mas se ela não queria falar sobre isso é porque deveria ter seus próprios motivos e eu respeitei sua privacidade. Na certa ele era mais um desses caras que não valia nada. Mamãe não dava sorte com homens mesmo. E se ele fosse (certamente era) mais um desses canalhas que a desrespeitaram e a magoaram não me interessava saber sua história. Um homem que abandona a mulher e o filho boa coisa não deve ser. Porque é obvio, se William estava conosco desde que eu era um bebê é porque isso tinha acontecido e eu não ia cutucar a ferida de mamãe. Ela deve ter sofrido muito por ele.
Aliás, mamãe sofreu com todos os caras com quem se envolvia, principalmente após os rompimentos. Tá aí algo que nunca consegui entender direito. Os caras tratavam-na como se fosse lixo e quando finalmente conseguia livrar-se deles, caía em depressão.
Era a época mais difícil de se conviver com ela. Primeiro porque não era fácil vê-la sofrendo e segundo porque ela ficava impossível. Despertava ímpetos agressivos, me batia, me xingava, bebia. Bebia pra caramba. Não estou dizendo que era uma alcoólatra. Mamãe só bebia quando se sentia deprimida, meio pra baixo e…

… peraí! Mamãe freqüentemente ficava pra baixo e freqüentemente bebia… Acabo de me dar conta de uma coisa: minha mãe era uma alcoólatra! Talvez não… sei lá. Só sei que quando seus relacionamentos acabavam era como se o mundo desabasse sobre sua cabeça, aí então ela chorava, batia, xingava, transava com uma porção de caras, bebia e até se drogava.

Tudo isso pra tentar matar a dor.

Com o tempo ela superava. Isso sempre acontecia. Ela sempre superava. Fazia um monte de besteiras, mas superava. Quando eu menos esperava lá estava ela, de pé, cabeça erguida, pronta pra outra. Era forte e não se dava conta. Sua insegurança lhe cegava. Achava que não venceria sem alguém ao seu lado. Mesmo se esse alguém a traísse, a maltratasse, a desrespeitasse… O que importava é que tinha alguém ali. É difícil de entender.

O rompimento mais difícil de superar foi com o russo. Ela fez mil planos, estava super entusiasmada e de repente tudo desmoronou. E desmoronou feio. Deve ter sido barra. O almofadinha bem que tentou uma reconciliação, pediu perdão, um montão de coisas… tudo em vão.
Se fosse uma pessoa mau caráter iria aproveitar a oportunidade e sugá-lo. Com certeza aquele cara seria moleza de sugar. Apesar de tudo acho que ele estava apaixonado ou pelo menos gostando muito de minha mãe. Digo isso baseado na forma com que rastejou para tê-la de volta. Eu mesmo admito que, se fosse mulher e estivesse nessa situação o “perdoaria” e prosseguiria naturalmente com tudo, como se nada fosse nada, afinal, a chance de se ficar rico do dia para a noite acontece de um em um milhão e só uma vez na vida. Portanto…
Mas mamãe não, manteve-se convicta em sua decisão e não voltou atrás. E o cara enchendo o saco em casa toda noite, trazendo presentes, fazendo galanteios. A vantagem é que comi bombons suíços todas as noites por aproximadamente uns seis meses…

Então ele desistiu. Nem é preciso comentar que meu estômago levou mais seis meses para aceitar que não ganharia mais chocolatinhos suíços, né?

Na última noite lembro que mamãe foi bem rude para não usar o termo grosseira. O almofadinha chegou em casa todo perfumado, o cabelo amarelado lambido com gel, um buquê de flores na mão direita e na mão esquerda, como era de praxe, os meus bombons. Ele achava que podia me comprar com uma dúzia de docinhos importados e que assim, facilmente, eu me aliaria a ele. E, claro, eu o deixei achando.

Aquela noite apareceu por lá eram mais ou menos umas oito e meia, eu estava resolvendo um exercício complicadíssimo de matemática no sofá enquanto minha mãe botava a mesa pro jantar. Nós o tratávamos da pior forma possível, quer dizer, não o espancávamos nem o insultávamos, mas o tratávamos com indiferença. Não o convidamos pra entrar, nem pra sentar e ao que tudo indicava nem pra jantar. Ele simplesmente não existia. Mamãe dizia que não suportava mais aquela insistência e bajulação, e que algum dia ainda iria explodir. E enquanto eu devorava o que ele tinha trazido pra mim e me perdia no meio de tantos números e símbolos, sentia que provavelmente o tal dia havia chegado.

Ela saiu da cozinha e veio em direção a sala dando passos fortes e pesados. Só eu sabia o que poderia acontecer quando ela dava aqueles passos, parou no meio da sala com as mãos na cintura e olhou para o infeliz de uma maneira tão gélida que cheguei a sentir um calafrio. Ele se aproximou, todo submisso e lhe entregou o buquê, meio sem jeito. Mamãe parecia uma bomba-relógio prestes a detonar. Eu poderia até mesmo em pensamentos fazer a contagem regressiva: 5, 4, 3… e detonou! Detonou mais cedo do que eu esperava, não deu tempo nem de contar até o 2!

Nem preciso dizer que o tal buquê foi parar do outro lado da sala e que se deu início a discussão. A discussão final.

Eu apenas observava em silêncio, meus olhos corriam de um lado pro outro à medida que eles falavam, como se estivesse assistindo a uma partida de tênis. Por um lado mamãe dando seus típicos gritos histéricos e por outro o russo, sussurrando as palavras, mantendo a pose de educação européia. Eu não torcia pra ninguém naquela disputa, só queria que aquele inferno acabasse logo. Mas quando mamãe disse que tinha nojo de bissexuais e despejou uma porção de preconceitos, por pouco os chocolatinhos suíços não pularam pra fora do meu estômago e espalharam-se pela sala para completar o espetáculo. Nunca tinha ouvido minha mãe falar tanta asneira. Se havia alguém com nojo naquela sala esse alguém era eu. Estava com nojo dela por ter dito aquilo. Concordo que ele sacaneou muito, mas ninguém tem o direito de fazer isso.

Cheguei a sentir pena do cara. Ele saiu cabisbaixo e nunca mais apareceu.

Naquela noite fiquei surpreso comigo mesmo. Jamais imaginei que sentiria nojo de minha própria mãe e muito menos que sentiria pena daquele almofadinha. Não me puni por isso. Eu estava certo. Era apenas uma questão de justiça ou pelo menos respeito aos direitos humanos. O que deu pra notar é que ela sentiu mais ódio dele do que dos outros que a traíram. Ela considerou esta a traição pior.
Acho que isso não tem nada a ver, não importa se foi heterossexual ou não. Traição é traição e pronto.

Quando ele se retirou senti um forte frio na espinha e engoli em seco. Coisas dessa espécie sempre sobravam pra mim. Mas não sobrou. Ela apenas me olhou e disse antes de ir para o seu quarto:

— Escreva o que eu digo, Allan, nunca mais vou querer homem na minha vida.

No mesmo mês conheceu Mike numa churrascaria e começaram o namoro.

domingo, 15 de julho de 2007

Episódio 1 - Nada além de um pesadelo

Naquele momento nada poderia passar pela cabeça, a mente estava muito amedrontada para ocupar-se com isso. Um sentimento insuportável de estar desprotegido invade por completo. O coração acelera, suor frio emana da testa e das mãos e surge uma respiração ofegante incontrolável que nada mais faz além de piorar a situação de pânico. Não existe outra opção senão correr. Correr sem pensar. Correr por instinto… Para onde?

Ninguém sabe. Você apenas corre sem ter a mínima idéia pra onde esse caminho meio escuro vai dar, esgueirando-se pelas paredes e tombando em coisas que servem apenas de obstáculos e que nem sabe-se o que é. E você nem é louco em voltar para descobrir.

Dane-se. O que passou ficou pra trás. Apenas corre para que aquilo não te alcance mas, à medida em que você acelera, ele se aproxima cada vez mais e as chances de se salvar são poucas.

De repente, quando você menos espera, uma enorme faca é cravada na parede há um palmo de seu nariz. Não há coragem de olhar pra trás e ver quem a está empunhando, só a certeza de que, seja lá quem for que te perseguia, te apanhou e já é tarde para fugir. Você sente o gelo da lâmina rasgando a pele de suas costas, fazendo o seu sangue jorrar e penetrando cada vez mais fundo. Então sua noite se resume em … aaah!!! Um grito.

Me deparo com o olhar distante e depressivo de Jim Morrison na parede do quarto e, de soslaio, o olhar verde claro de Mike cheio de preocupação, agachado ao lado de minha cama. Mamãe escorada na porta, mais curiosa do que preocupada. Na janela, o sol despontando como prova de que a madrugada tinha ido embora.

Foi um pesadelo. O terceiro daquela noite. A única diferença é que nesse último eu não me contive e alarmei a casa toda.

— Você está bem, Allan? – ele me perguntou passando a mão na minha testa encharcada de suor frio.


— Estou. – respondi procurando agir com naturalidade e dando um sorriso exageradamente forçado.

— Então levante-se e troque de roupa para tomar café. – ordenou mamãe sem dar a mínima para o acontecido – Já são quase sete horas e logo logo Eddie estará aí. Não demore. Não quero saber de atraso na escola. – e dirigindo-se para Mike continuou as ordens – Se não se aprontar rápido chegará atrasado no serviço e em nossas árvores não nascem dinheiro para que a gente permita que seu salário seja descontado.

— Já estou indo. – respondeu obediente.

Parecia que ele era o filho. Eu não disse nada, mas nunca permiti que mamãe me manipulasse daquele jeito. Ela girou nos calcanhares e foi para a cozinha.

A expressão no rosto de Mike era apreensiva, levantou-se de onde estava e sentou-se à minha frente perto dos pés da cama. Os cabelos encaracolados despenteados, o rosto de quem ainda está com sono e eu apenas o observava, naquele short verde exibindo os joelhos ossudos. Ele parecia duvidar de minha palavra. Me olhou sério.

— Allan, você sabe que pode confiar em mim, não sabe?


Eu assenti com a cabeça. Não sabia ao certo se confiava nele ou não, mas não queria desapontá-lo. Mike era um cara legal. Não poderia dizer que era um pai pra mim, não poderia dizer também que era um amigo. Mas não me lembro de ele ter me trazido aborrecimentos. Uma coisa eu nunca pude negar: Mike era diferente. Até que se importava um pouco comigo e isso fazia com que eu me sentisse bem. Pelo menos por alguns segundos…
Não sei se tinha confiança nele, mas que ele inspirava confiança, isso inspirava. Seu jeito calmo de falar, de mover-se. Ouvi-lo conversar era algo confortante, não usava gírias e falava pausadamente. Sei lá… passava uma segurança.

— O que está havendo, Allan? – indagou jogando o corpo pra frente, como que preparando-se para ouvir atenciosamente o que eu tinha a dizer.

— Nada. – mas eu não tinha nada a dizer ou não queria dizer.

— Não é o que parece. Você deu um grito de desespero que sinceramente, me assustou.

— Não esquenta, besteira minha! – dei mais um sorriso daquele tipo.

— Foi outro pesadelo, não foi? – ele agora olhava bem dentro dos meus olhos.

— Foi. – não consegui mentir – Mas eu tô legal.

Não. Eu não estava legal e sabia disso. Mike também sabia disso. Além de suar frio, minhas mãos não paravam de tremer, porém, ele percebeu que eu não queria falar sobre o assunto e respeitou minha privacidade. Se havia alguma coisa que Mike sabia fazer era respeitar a privacidade alheia. Parecia até que ele andava com um desconfiômetro no bolso. Hesitou um pouco para se retirar, mas enfim, se retirou. Só que antes segurou minhas mãos trêmulas e disse para eu relaxar.

Relaxar. Será que eu sabia o que era isso? Acho que eu nunca soube o que é relaxar em toda a minha vida. Talvez porque sempre fui uma pessoa muito enérgica, não importa se estou triste ou feliz, sempre escuto alguém me dizendo: “Relaxe, Allan”. Em casa, na escola, no cinema e até nas aulas de guitarra onde o barulho daqueles parasitas tentando tocar é infernal, exceto eu… Certo, certo, não sou nenhum Jimi Hendrix, mas pelo menos não corro o risco de estourar os tímpanos dos outros!

Pulei da cama quando ouvi o grito estridente de mamãe ecoar da cozinha: “Allan, seu animal, anda logo antes que se atrase!”

Odeio quando me chamam de animal. Só que dessa vez não retruquei. Não queria começar o dia com uma discussão. Levantei a coberta, estava completamente nu, era assim que costumava dormir e achei que não seria conveniente manter esse hábito se tivesse pesadelos com freqüência. Dessa vez tive sorte de estar coberto, mas nunca se sabe o dia de amanhã. Enfiei uma camiseta e um jeans. Não costumo usar cuecas também, na minha opinião, cueca sempre foi coisa de yuppie. No começo foi difícil, me assava todo, porém, com o tempo fui me acostumando.

Com os pés descalços fui até o banheiro lavar o rosto e escovar os dentes. Dei de cara comigo no espelho e meus olhos aquele dia estavam azuis. Meus olhos são uma espécie de olhos mutantes, você nunca sabe de que cor eles vão estar no dia seguinte, ás vezes estão verdes, ás vezes azuis e pasmem! Ás vezes estão cinzas. Quando amanhecem cinzas não tenho vontade sequer de botar a cara pra fora de casa. É muito esquisito, não parece olho de ser humano. Dei um sorriso (dessa vez não foi forçado), adorava quando amanheciam azuis.

Iniciei um auto-exame estético e concluí que as mulheres deveriam me considerar um cara bonito. Sou alto, tenho um metro e setenta e três de altura (certo, certo, não tão alto, mas também não nanico!), um cabelo decente, longo, bem liso e fininho, ruivo, com uma franja um tanto longa jogada pro lado esquerdo do rosto que é um charme. Sou ruivo mas não desses ruivos todos pintados de sardas, sempre tive uma pele bonita, tá certo, bem branca, mas pelo menos limpa, bonita. Não possuía uma espinha sequer! Nada mal para um adolescente de dezessete anos. A maioria dos meus colegas pareciam uns abacaxis. A única coisa que nunca curti em meu rosto é minha barba, que é a cor do meu cabelo. Nunca deixava ela crescer, se pudesse faria uma depilação com cera para sossegar pelo menos durante um mês. Outra coisa que nunca foi muito legal no meu rosto também é o meu nariz. Ele não é o tamanho padrão da estética, mas para os poucos observadores sempre passou despercebido. De um modo geral, definitivamente, eu era um cara bonito.

Resolvi deixar o narcisismo de lado e voltei para o meu quarto. Olhei no relógio e deduzi que ia chegar atrasado. Ótimo, a primeira aula era de Geografia e eu odiava aquela professora com cara de queijo. Então me lembrei que odiava ainda mais o grito histérico da minha mãe e resolvi me apressar.

Minhas mãos continuavam tremendo e ainda não acredito que me peguei falando a mim mesmo: “Relaxe, Allan”. Foi só um pesadelo e já tinha acabado.

O que eu não imaginava é que estava apenas começando.