sexta-feira, 20 de julho de 2007

Episódio 3 - Eu e Mike

Toda vez que mamãe avisava que ele viria nos visitar eu arranjava uma desculpa para pular fora. Na maioria das vezes eu dormia na casa do meu melhor amigo. Fazia de tudo para não conhecê-lo, até que chegou um ponto em que ficou inevitável não nos encontrarmos. Dividíamos o mesmo teto.

No início não foi nada fácil e reconheço que por minha culpa. Eu não agia com infantilidade, não reclamava, nem nada. Apenas ficava na minha, falava o essencial e não dava confiança. Só que ficava aquele clima pesado devido a minha frieza. Não conseguia aceitar a idéia de mamãe estar namorando novamente. Até que um dia eu estourei, cheguei até a jogar na cara o que tinha dito na última noite em que esteve com o russo. Disse que não era uma mulher de palavra, que não confiaria nunca mais no que quer que fosse que dissesse e que Mike tinha cara de cafajeste. Pode até soar egoísta. Acho que estava traumatizado, não sabia se suportaria ver mais um patife magoando minha mãe.

Não acreditei que aquele relacionamento vingaria, para mim, Mike só procurava alguns momentos de prazer e diversão com uma mulher bonita e ingênua. Porque mamãe era ingênua. Mesmo após ter apanhado tanto da vida ainda acreditava no amor e na benevolência das pessoas. Nunca botei fé naquilo. Muito menos depois que o conheci. Não me simpatizei nem um pouco e tentei passar pra mamãe o mesmo sentimento dizendo tudo o que pensava. Ela não deu ouvidos.

Será que não podia ver que o cara era mais um desses almofadinhas que tem de sobra por aí? E um almofadinha pra lá de chato que só sabia falar sobre política, economia e música clássica, a qual, por sua culpa me apaixonei. Aliás, foi a música que nos aproximou um pouco. Ele me apresentou Bach, Mozart, Strauss, Ravel, Beethoven. Eu lhe apresentei Doors, KISS, Black Sabbath, Rolling Stones, Ramones… pólos bem opostos. O importante é que eu gostei do que ele me mostrou e ele gostou do que lhe mostrei. Conversávamos apenas sobre esse assunto e mamãe, mesmo gostando apenas de Bob Marley, muitas vezes entrava na conversa. Mike tornou-se então, o cara para debater sobre música todas as noites. E não passava disso.

Percebi que a coisa tava ficando séria mesmo quando Mike mandou reformar nossa casa, ampliara o salão de beleza de mamãe e… pagara escola particular pra mim! Ele chegou a sugerir uma mudança de residência, estava até com uma casa em vista, num bairro mais simples, porém, uma casa maior. Só que mamãe não concordou, disse que aquela casa tinha um grande valor sentimental e que não a trocaria nem por uma cobertura em Beverly Hills. Duvido. Não é necessário contar que virei uma fera, não é mesmo?

Morávamos num bairro classe média, mas não éramos classe média. Éramos pobres. A casa era razoável, tinha um quintal grande e eu gostava de lá. Meu mundo era aquelas nove peças e aquele bairro onde nasci e me criei. Mesmo sabendo que aquele era meu mundo não conseguia me encaixar. Fazia parte daquele lugar e ao mesmo tempo não fazia. Eu me sentia excluído das outras crianças. Enquanto elas ganhavam brinquedos caros no Natal, eu passava fome na ceia. Enquanto viajavam para a Disney, eu passava as ferias trabalhando para ajudar minha mãe a comprar comida. Fiz de tudo, fui garçom, jardineiro, faxineiro… e sobrevivi.

Tinha que admitir que minha realidade era muito diferente. Se estava ali era porque minha avó tinha dado um ataque cardíaco e deixado a casa como herança. Sabendo que ela poderia ter nos deixado muito mais. Não cheguei a conhecê-la, no entanto, o que me contaram a respeito foi o suficiente para saber que era uma mulher tão forte e tão batalhadora quanto minha mãe. Depois de muitos anos puxados fez um bocado de dinheiro e conseguiu obter uma vida financeira estável. Porém, fez também muitos filhos para repartir os seus bens. Para nós só restou a casa.

Não dá para negar que Mike nos proporcionou um grande alívio financeiro. Desde que chegou não lembro de termos passado um dia sem ter fartura na mesa. Mamãe e eu nos esforçávamos muito para nos auto-sustentar e sustentar aqueles marmanjos que moraram conosco (com exceção do William, que também segurou a barra certa vez), mas apesar de todo o esforço, muitas vezes nosso almoço se resumia a arroz puro.

Com Mike isso nunca aconteceu, pelo contrário, ele e mamãe que arcavam com a comida e agora o dinheiro que eu recebia trabalhando era apenas para os meus gastos. Eu comprava roupas, sapatos, material escolar e ainda sobrava pra pagar minhas aulas de guitarra e gastar com alguma garota no cinema ou numa lanchonete.
Quanto à escola particular, foi maravilhoso. O ensino era muito melhor e eu comecei a me sentir incluído no mundo em que nasci. Graças ao Mike.

Não foi apenas financeiramente que as coisas mudaram. Mike deu uma reviravolta muito grande em nossa rotina e nossa vida. Era atencioso conosco, tratava super bem a minha mãe, só levantava a voz quando passava dos limites (e isso D. Alice sabia fazer melhor do que ninguém!) e me dava alguns sermões quando necessário. Não era como os outros caras que se achavam superiores e já chegavam tomando conta do pedaço. Se saía à noite, sempre levava a minha mãe, ou seja, probabilidades pequenas de traição. E o nosso ambiente familiar nunca mais foi o mesmo.

Ele não encostou um dedo sequer em nós. Antigamente, quando passava as noites em claro, podia ouvir o choro convulsivo de minha mãe do outro lado da parede por ter sido espancada pelo Carlos. Aquilo durava a madrugava inteira e me corroia por dentro. Com o William eu também passava as noites em claro. A única diferença é que o choro convulsivo partia de mim.

Com Mike não, tudo era diferente. Dava a mamãe o devido valor que sempre mereceu e me tratava como um filho. E olha que não estou exagerando. Ele agia como um verdadeiro pai. E um bom pai. Ele me ajudava com os deveres de casa, cuidava de mim quando estava doente, me acompanhava nos estádios, mesmo detestando futebol americano. Mas como todo bom pai tinha seus pontos negativos, impôs horários para chegar em casa, exigiu responsabilidades e sempre dava sua bronquinha na hora certa…

Com o passar do tempo comecei a vê-lo de modo diferente. De almofadinha passou a ser alguém o qual eu possuía uma grande admiração. No começo fiquei bastante desconfiado. Eu cresci ouvindo pra nunca confiar em ninguém, que se alguém faz algo de bom é porque deseja algo em troca. Então a situação chegou a um ponto em que não pude deixar de comentar. Foi quando eu tive uma febre muito alta e ele ficou sentado numa cadeira pra lá de desconfortável na cabeceira da minha cama a madrugada inteira, me vigiando, regulando minha temperatura a cada cinco minutos, enfiando aquele maldito termômetro na minha boca e botando compressas de gelo em minha testa.

— Mike, por que você me trata dessa maneira? – perguntei a ele com uma voz baixa de doente.
— Que maneira? – ele já franziu o cenho achando que estava fazendo alguma coisa errada. Sua preocupação refletia-se na pouca claridade que o abajur nos dava.
— Você sabe… - disse meio sem jeito. -… essa dedicação toda…
— Há algo de errado com isso?
— Não, não. Errado não seria a palavra correta. Esquisito talvez.
— Esquisito por quê?
— Sei lá… todos os meus padrastos eram uns estúpidos comigo. Um deles chegou até a me espancar.
— É, eu soube. Sua mãe me contou. – ele baixou os olhos – Sinto muito.
— Não sinta. Nem eu sinto. – menti.
— Tudo bem. Isso prova que é um garoto forte.

Eu sabia que ele fingia que estava acreditando.

— Isso não responde à minha pergunta. – pressionei.
— Você parece desconfiar de alguma coisa. – me olhou com o canto dos olhos.
— Mike, nem minha mãe me trata desse jeito. Veja, agora mesmo ela está sossegada…
—… enquanto você arde em febre. – interrompeu. – Allan, se as pessoas nunca te trataram desse jeito não quer dizer que você não mereça.

E após uma pausa, ele disse:

— Eu já tive um filho.
— E onde ele está?! – não sei se consegui disfarçar o espanto.

Provavelmente não. Mike olhou pra mim parecendo estar meio arrependido de ter aberto a boca. Após outra breve pausa, ele me responde:

— Morto. – seus olhos escureceram e eu senti uma leve depressão tomar conta de mim. – Se ele estivesse vivo, estaria com a sua idade: doze anos… - disse pensativo.

Agora as peças se encaixavam e pude ver as coisas com maior clareza. Mike fazia tudo aquilo por mim porque sentia-se bem fazendo. Se seu filho estivesse vivo era isso que faria por ele. Era simples de compreender. Mike estava projetando a imagem de seu filho através de mim. Não fiquei zangado, mas que havia algo mórbido nesse lance, havia.

— Allan, não quero que me interprete mal. Eu não estou te substituindo no lugar do meu filho. – explicou como se tivesse lido meus pensamentos. – Ninguém poderá substituí-lo porque ele era único. Assim como você também é único. Não vou negar que você preenche um pouco esse vazio que existe dentro de mim. Mas esse vazio sempre irá existir.
— É, mas pode ser amenizado. – falei com voz trêmula.
— Allan, entenda… você é uma pessoa muito especial. Jamais te usaria para coisa alguma. Não estou te usando para amenizar dor nenhuma. Eu adoro sua mãe e nunca faria nada que a magoasse. Tá certo que muitas vezes a gente discute, isso é normal. Você sabe, quando ela começa a dar aqueles gritos…
—… os típicos gritos histéricos! – falei rindo. Ele acabou rindo também.
— Isso mesmo… os típicos gritos histéricos. Mas acredite, eu nunca teria coragem de espancar a ela, nem a você. Aliás, eu nunca teria coragem de espancar ninguém, porque nenhuma pessoa tem o direito de fazer isso com outra. Isso não é hipocrisia. Vivo com vocês há seis meses e se fosse acontecer já teria acontecido. Eu gosto de vocês e os respeito muito. Sei que tem motivos de sobra para estar desconfiado. Eu não ligo. Sou paciente. Sei que com o tempo poderei provar a vocês que sou diferente.

Naquela madrugada senti pela primeira vez que alguma coisa tinha mudado e não consegui dormir. Fechei os olhos pra ele pensar que estava dormindo, bem que queria, mas os meus pensamentos não deixavam. Fiquei pensando nos meus ex-padrastos, na minha mãe e principalmente no que Mike havia dito. Se ele tivesse que provar alguma coisa seria apenas pra mim. Desde o começo mamãe dizia que ele era diferente. Só que não dava pra acreditar no que partia dela, porque toda a vez que tentava alguém novo dizia isso. Acho que dessa vez tinha acertado.

Vez ou outra eu abria disfarçadamente meu olho esquerdo para observá-lo e lá estava ele naquela cadeira, sem pregar o olho a madrugada inteirinha, apenas vigiando meu “sono” e olhando de cinco em cinco minutos pro seu relógio de pulso com medo de passar a hora dos meus remédios.

Aquilo tudo era tão novo pra mim, tão estranho… e tão bom. Senti uma segurança que nunca sentira antes. No início não simpatizei nem um pouco com ele e não concordava com aquele relacionamento, tentei passar o mesmo sentimento para mamãe. Sorte que ela não deu ouvidos. Definitivamente, Mike era diferente… mas bem que ele poderia deixar de lado essa droga de ovos com bacon de manhã, né?

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