terça-feira, 17 de julho de 2007

Episódio 2 - Café da manhã relembrando os maridos de minha mãe

Toda a manhã era a mesma coisa. Na metade do corredor já pude sentir aquele cheiro característico que infestava a cozinha. Mamãe no fogão preparando o mexido de ovos com bacon e Mike à espera na mesa, sorvendo alguns goles de café exageradamente adocicado. Dava pra ver a porção de açúcar no fundo da xícara. Eu não podia ver aquilo. Abri o armário, peguei uma xícara e enchi de café puro. Mike não podia ver aquilo.

Ele agora estava com um aspecto melhor ao que se encontrava ao lado da minha cama. Totalmente alinhado e até mesmo elegante. Usava calça e camisa social, gravata e sapatos mocassim. O cabelo com um leve toque de gel dando um efeito molhado, não lambido. Seu trabalho exigia que se vestisse assim, mas mesmo que não exigisse ele se vestiria dessa forma. Era o seu estilo.
Mike trabalhava no departamento pessoal de uma grande firma aqui de Los Angeles. Não sei que firma, só sei que era uma grande firma. Toda a vez que me deparava com Mike arrumado só uma coisa me vinha à cabeça: “Céus, esse cara é um yuppie!” Porém, uma coisa devo confessar, não sei o que havia me assustado mais, a faca cravando em mim no pesadelo ou ter dado de cara com Mike descabelado após haver aberto os olhos.

Cortei uma fatia de bolo de chocolate. Meu café da manhã era esse, uma xícara de café com um pedaço de bolo. Pode até parecer pouco, mas desde que Mike veio morar conosco, comer “tudo” isso era uma grande vitória. No começo, encarar em jejum aquele fedor de ovos com bacon embrulhava tanto o estômago que eu não conseguia colocar nada na boca. Esse era o ponto negativo de tê-lo conosco.

Ele era a quinta tentativa de casamento de mamãe e provavelmente a última. Acho que dessa vez tinha acertado. Apesar dos pesares, ela merecia, quero dizer, ela era uma chata, histérica, mandona, o protótipo da mulher que jamais desejei pra mim. Mas tinha que reconhecer que era uma pessoa batalhadora (após anos de trabalho duro conseguiu montar seu próprio salão de beleza sozinha, sem ajuda de homem nenhum) e muito perseverante. Principalmente para arranjar o marido ideal.
Todos os caras com que se envolvia eram uns tremendos babacas que não sabiam lhe dar o devido valor. O anterior ao Mike era um almofadinha arrogante com um nome esquisito que eu nunca soube decorar. Tinha vindo da Rússia e era podre de rico. Queria compromisso sério, papel passado e tudo. Seus planos era o de nos levar para a Rússia e dar-nos uma vida de rei. Mamãe vivia se perguntando o que ele tinha visto nela. Eu respondo. Minha mãe era uma mulher linda, quarenta anos num corpo de vinte, alta, lindos olhos verdes e lindos cabelos louros ondulados. E além de linda era talentosa e inteligente. Não tanto quanto Mike, não teve a chance de terminar os estudos, foi obrigada a dar duro cedo. O único diploma que possuía era o de cabeleireira. Mesmo assim não deixava de ser uma pessoa inteligente. As pessoas costumam pensar que só quem tem diploma é que tem inteligência, mas não é assim. Inteligência vem de berço. A escola é apenas um complemento. Minha mãe não teve muito desse complemento, mas entendia muitas coisas. Ela não era o tipo de pessoa com o dom de te matar de tédio com seu papo, posso até dizer que sua conversa era interessante e que jamais me deixou em situações embaraçosas (como a maioria das mães dos meus colegas) por causa da língua solta. Dona Alice era inteligente, não culta, mas inteligente.

Voltando ao assunto, mesmo não entendendo o que o almofadinha tinha visto nela, sentia-se extremamente feliz. Eu me sentia assustado. Apesar de toda a mordomia que me esperava, não conseguia me imaginar na Rússia, no meio de toda aquela formalidade e sem entender uma vírgula do que eles dizem. O ponto de vista dela era exatamente o contrário do meu, para ela, toda aquela frescura era o sonho dourado e sentia-se a própria Cinderela.
No entanto, seus castelos de areia se desfizeram no momento em que recebeu um telefonema anônimo em seu trabalho dizendo que ele a estava traindo e que se quisesse a prova que anotasse o endereço e fosse imediatamente para lá. Dito e feito. Mamãe flagrou seu príncipe encantado na cama de um hotel de luxo… com outro homem!

Até hoje não descobrimos quem fez essa maldade. Mamãe odeia quando falo dessa maneira, ela acha que quem ligou para o seu trabalho aquele dia lhe fez um favor, abriu seus olhos. Eu não penso assim. Acho que uma pessoa que tem uma atitude tão baixa como essa só pode ser uma infeliz que não quer ver a felicidade dos outros. Eu, particularmente, odiava o cara, mas não podia negar que ele a fazia feliz. Nunca tinha visto mamãe tão bem e satisfeita quanto na época em que estavam juntos. Se eu fosse uma pessoa egoísta, diria que seja lá quem fosse esse alguém que dedurou, fez um favor a mim, não a ela, afinal era um alívio não ter que deixar L.A. Mas pelo contrário, eu sofri tanto quanto ela.

Sua terceira tentativa foi o Johnny, feio pra burro, cabelo espetado e curto, branquelo, usava uns óculos com aros enormes… Mas até que o cara era legal e bastante inteligente. Tudo o que sei sobre mecânica de automóveis devo a ele. Passávamos horas conversando sobre motores, peças e muitas vezes ficávamos até altas horas da madrugada na garagem consertando máquinas velhas. Carros que entravam verdadeiras sucatas, com o toque mágico de nossas mãos saíam verdadeiros primores. A gente se dava muito bem e até planejávamos montar uma oficina. Acontece que mamãe o considerava um frouxo… não durou sequer três meses.

A segunda tentativa foi um tal de Carlos. Eu odiei aquele tipo. O cara era ridículo demais, típico mexicano do interior (pode até soar racista, mas desde que fui obrigado a conviver com esse cara quero distância do México), não sei o que mamãe viu naquilo. Mais feio que o demônio, parecia um bugre (parecia não, era) e possuía um bigode preto pra lá de grande que se perdia no meio da pele do rosto quase da mesma cor. Bastava abrir a boca para eu sentir vontade de sair correndo. Seu sotaque castelhano massacrando o meu inglês era uma ofensa. Típico cafajeste, traía minha mãe na cara dura, chegava em casa quase de manhã, bêbado (como todo “latin lover macho man” que se preze) e ainda por cima batia nela. Não sei como o suportou durante dois anos.

E, finalmente, a primeira tentativa foi o William. Não sei se ele foi o marido que ela mais gostou, só sei que foi o relacionamento que mais durou. Ficou com mamãe até eu completar oito anos. Segundo as mulheres, ele era um homem bonito, para mim, não passava de um alemão enorme que mais parecia um troglodita.

Ele trouxe muito aborrecimento para minha mãe com seu comportamento tirano e autoritário. Seu passatempo era me espancar. Até hoje possuo algumas marcas no corpo devido as suas chicotadas. Era um hipócrita nato, vivia pregando o valor da fidelidade e quando nos abandonou confessou que estava indo para a casa da amante a qual havia tendo um caso há mais de três anos. Ele também bebia, muito. Era um jogador compulsivo, se recebia algum dinheiro torrava tudo nos jogos. Seu maior sonho era ganhar uma milionária jogada e comprar um cassino em Vegas. Pode?

Confesso que sofri muito nas mãos desse cara, só que até agora não sei quem me fez sofrer mais, se foi ele ou o Carlos. O William me batia, batia bastante, mas nunca encostou um dedo em minha mãe. O Carlos já fazia o oposto, batia nela e não em mim. É muito duro para um garotinho de oito anos de idade ver sua própria mãe sofrendo, apanhando, sem poder fazer coisa alguma. Você se sente um inútil e até mesmo culpado. A vontade que dá é de estar no lugar dela e poupá-la dessa merda toda. É por isso que não sei o que é pior, apanhar ou ver alguém que você ama apanhando. Acho que a segunda hipótese é a mais provável…

Quanto ao meu pai, bem… eu cresci acreditando que era o William, mas aos seis anos de idade descobri de forma triste, pra não dizer trágica, que ele não era o meu verdadeiro pai. Na verdade, eu nunca tive a chance de conhecer meu pai, mamãe nunca gostou de tocar no assunto e eu resolvi não insistir. Tudo bem que eu tinha o direito de saber, afinal tratava-se de meu pai, meu progenitor, o homem que me meteu nessa droga de mundo… Mas se ela não queria falar sobre isso é porque deveria ter seus próprios motivos e eu respeitei sua privacidade. Na certa ele era mais um desses caras que não valia nada. Mamãe não dava sorte com homens mesmo. E se ele fosse (certamente era) mais um desses canalhas que a desrespeitaram e a magoaram não me interessava saber sua história. Um homem que abandona a mulher e o filho boa coisa não deve ser. Porque é obvio, se William estava conosco desde que eu era um bebê é porque isso tinha acontecido e eu não ia cutucar a ferida de mamãe. Ela deve ter sofrido muito por ele.
Aliás, mamãe sofreu com todos os caras com quem se envolvia, principalmente após os rompimentos. Tá aí algo que nunca consegui entender direito. Os caras tratavam-na como se fosse lixo e quando finalmente conseguia livrar-se deles, caía em depressão.
Era a época mais difícil de se conviver com ela. Primeiro porque não era fácil vê-la sofrendo e segundo porque ela ficava impossível. Despertava ímpetos agressivos, me batia, me xingava, bebia. Bebia pra caramba. Não estou dizendo que era uma alcoólatra. Mamãe só bebia quando se sentia deprimida, meio pra baixo e…

… peraí! Mamãe freqüentemente ficava pra baixo e freqüentemente bebia… Acabo de me dar conta de uma coisa: minha mãe era uma alcoólatra! Talvez não… sei lá. Só sei que quando seus relacionamentos acabavam era como se o mundo desabasse sobre sua cabeça, aí então ela chorava, batia, xingava, transava com uma porção de caras, bebia e até se drogava.

Tudo isso pra tentar matar a dor.

Com o tempo ela superava. Isso sempre acontecia. Ela sempre superava. Fazia um monte de besteiras, mas superava. Quando eu menos esperava lá estava ela, de pé, cabeça erguida, pronta pra outra. Era forte e não se dava conta. Sua insegurança lhe cegava. Achava que não venceria sem alguém ao seu lado. Mesmo se esse alguém a traísse, a maltratasse, a desrespeitasse… O que importava é que tinha alguém ali. É difícil de entender.

O rompimento mais difícil de superar foi com o russo. Ela fez mil planos, estava super entusiasmada e de repente tudo desmoronou. E desmoronou feio. Deve ter sido barra. O almofadinha bem que tentou uma reconciliação, pediu perdão, um montão de coisas… tudo em vão.
Se fosse uma pessoa mau caráter iria aproveitar a oportunidade e sugá-lo. Com certeza aquele cara seria moleza de sugar. Apesar de tudo acho que ele estava apaixonado ou pelo menos gostando muito de minha mãe. Digo isso baseado na forma com que rastejou para tê-la de volta. Eu mesmo admito que, se fosse mulher e estivesse nessa situação o “perdoaria” e prosseguiria naturalmente com tudo, como se nada fosse nada, afinal, a chance de se ficar rico do dia para a noite acontece de um em um milhão e só uma vez na vida. Portanto…
Mas mamãe não, manteve-se convicta em sua decisão e não voltou atrás. E o cara enchendo o saco em casa toda noite, trazendo presentes, fazendo galanteios. A vantagem é que comi bombons suíços todas as noites por aproximadamente uns seis meses…

Então ele desistiu. Nem é preciso comentar que meu estômago levou mais seis meses para aceitar que não ganharia mais chocolatinhos suíços, né?

Na última noite lembro que mamãe foi bem rude para não usar o termo grosseira. O almofadinha chegou em casa todo perfumado, o cabelo amarelado lambido com gel, um buquê de flores na mão direita e na mão esquerda, como era de praxe, os meus bombons. Ele achava que podia me comprar com uma dúzia de docinhos importados e que assim, facilmente, eu me aliaria a ele. E, claro, eu o deixei achando.

Aquela noite apareceu por lá eram mais ou menos umas oito e meia, eu estava resolvendo um exercício complicadíssimo de matemática no sofá enquanto minha mãe botava a mesa pro jantar. Nós o tratávamos da pior forma possível, quer dizer, não o espancávamos nem o insultávamos, mas o tratávamos com indiferença. Não o convidamos pra entrar, nem pra sentar e ao que tudo indicava nem pra jantar. Ele simplesmente não existia. Mamãe dizia que não suportava mais aquela insistência e bajulação, e que algum dia ainda iria explodir. E enquanto eu devorava o que ele tinha trazido pra mim e me perdia no meio de tantos números e símbolos, sentia que provavelmente o tal dia havia chegado.

Ela saiu da cozinha e veio em direção a sala dando passos fortes e pesados. Só eu sabia o que poderia acontecer quando ela dava aqueles passos, parou no meio da sala com as mãos na cintura e olhou para o infeliz de uma maneira tão gélida que cheguei a sentir um calafrio. Ele se aproximou, todo submisso e lhe entregou o buquê, meio sem jeito. Mamãe parecia uma bomba-relógio prestes a detonar. Eu poderia até mesmo em pensamentos fazer a contagem regressiva: 5, 4, 3… e detonou! Detonou mais cedo do que eu esperava, não deu tempo nem de contar até o 2!

Nem preciso dizer que o tal buquê foi parar do outro lado da sala e que se deu início a discussão. A discussão final.

Eu apenas observava em silêncio, meus olhos corriam de um lado pro outro à medida que eles falavam, como se estivesse assistindo a uma partida de tênis. Por um lado mamãe dando seus típicos gritos histéricos e por outro o russo, sussurrando as palavras, mantendo a pose de educação européia. Eu não torcia pra ninguém naquela disputa, só queria que aquele inferno acabasse logo. Mas quando mamãe disse que tinha nojo de bissexuais e despejou uma porção de preconceitos, por pouco os chocolatinhos suíços não pularam pra fora do meu estômago e espalharam-se pela sala para completar o espetáculo. Nunca tinha ouvido minha mãe falar tanta asneira. Se havia alguém com nojo naquela sala esse alguém era eu. Estava com nojo dela por ter dito aquilo. Concordo que ele sacaneou muito, mas ninguém tem o direito de fazer isso.

Cheguei a sentir pena do cara. Ele saiu cabisbaixo e nunca mais apareceu.

Naquela noite fiquei surpreso comigo mesmo. Jamais imaginei que sentiria nojo de minha própria mãe e muito menos que sentiria pena daquele almofadinha. Não me puni por isso. Eu estava certo. Era apenas uma questão de justiça ou pelo menos respeito aos direitos humanos. O que deu pra notar é que ela sentiu mais ódio dele do que dos outros que a traíram. Ela considerou esta a traição pior.
Acho que isso não tem nada a ver, não importa se foi heterossexual ou não. Traição é traição e pronto.

Quando ele se retirou senti um forte frio na espinha e engoli em seco. Coisas dessa espécie sempre sobravam pra mim. Mas não sobrou. Ela apenas me olhou e disse antes de ir para o seu quarto:

— Escreva o que eu digo, Allan, nunca mais vou querer homem na minha vida.

No mesmo mês conheceu Mike numa churrascaria e começaram o namoro.

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