domingo, 15 de julho de 2007

Episódio 1 - Nada além de um pesadelo

Naquele momento nada poderia passar pela cabeça, a mente estava muito amedrontada para ocupar-se com isso. Um sentimento insuportável de estar desprotegido invade por completo. O coração acelera, suor frio emana da testa e das mãos e surge uma respiração ofegante incontrolável que nada mais faz além de piorar a situação de pânico. Não existe outra opção senão correr. Correr sem pensar. Correr por instinto… Para onde?

Ninguém sabe. Você apenas corre sem ter a mínima idéia pra onde esse caminho meio escuro vai dar, esgueirando-se pelas paredes e tombando em coisas que servem apenas de obstáculos e que nem sabe-se o que é. E você nem é louco em voltar para descobrir.

Dane-se. O que passou ficou pra trás. Apenas corre para que aquilo não te alcance mas, à medida em que você acelera, ele se aproxima cada vez mais e as chances de se salvar são poucas.

De repente, quando você menos espera, uma enorme faca é cravada na parede há um palmo de seu nariz. Não há coragem de olhar pra trás e ver quem a está empunhando, só a certeza de que, seja lá quem for que te perseguia, te apanhou e já é tarde para fugir. Você sente o gelo da lâmina rasgando a pele de suas costas, fazendo o seu sangue jorrar e penetrando cada vez mais fundo. Então sua noite se resume em … aaah!!! Um grito.

Me deparo com o olhar distante e depressivo de Jim Morrison na parede do quarto e, de soslaio, o olhar verde claro de Mike cheio de preocupação, agachado ao lado de minha cama. Mamãe escorada na porta, mais curiosa do que preocupada. Na janela, o sol despontando como prova de que a madrugada tinha ido embora.

Foi um pesadelo. O terceiro daquela noite. A única diferença é que nesse último eu não me contive e alarmei a casa toda.

— Você está bem, Allan? – ele me perguntou passando a mão na minha testa encharcada de suor frio.


— Estou. – respondi procurando agir com naturalidade e dando um sorriso exageradamente forçado.

— Então levante-se e troque de roupa para tomar café. – ordenou mamãe sem dar a mínima para o acontecido – Já são quase sete horas e logo logo Eddie estará aí. Não demore. Não quero saber de atraso na escola. – e dirigindo-se para Mike continuou as ordens – Se não se aprontar rápido chegará atrasado no serviço e em nossas árvores não nascem dinheiro para que a gente permita que seu salário seja descontado.

— Já estou indo. – respondeu obediente.

Parecia que ele era o filho. Eu não disse nada, mas nunca permiti que mamãe me manipulasse daquele jeito. Ela girou nos calcanhares e foi para a cozinha.

A expressão no rosto de Mike era apreensiva, levantou-se de onde estava e sentou-se à minha frente perto dos pés da cama. Os cabelos encaracolados despenteados, o rosto de quem ainda está com sono e eu apenas o observava, naquele short verde exibindo os joelhos ossudos. Ele parecia duvidar de minha palavra. Me olhou sério.

— Allan, você sabe que pode confiar em mim, não sabe?


Eu assenti com a cabeça. Não sabia ao certo se confiava nele ou não, mas não queria desapontá-lo. Mike era um cara legal. Não poderia dizer que era um pai pra mim, não poderia dizer também que era um amigo. Mas não me lembro de ele ter me trazido aborrecimentos. Uma coisa eu nunca pude negar: Mike era diferente. Até que se importava um pouco comigo e isso fazia com que eu me sentisse bem. Pelo menos por alguns segundos…
Não sei se tinha confiança nele, mas que ele inspirava confiança, isso inspirava. Seu jeito calmo de falar, de mover-se. Ouvi-lo conversar era algo confortante, não usava gírias e falava pausadamente. Sei lá… passava uma segurança.

— O que está havendo, Allan? – indagou jogando o corpo pra frente, como que preparando-se para ouvir atenciosamente o que eu tinha a dizer.

— Nada. – mas eu não tinha nada a dizer ou não queria dizer.

— Não é o que parece. Você deu um grito de desespero que sinceramente, me assustou.

— Não esquenta, besteira minha! – dei mais um sorriso daquele tipo.

— Foi outro pesadelo, não foi? – ele agora olhava bem dentro dos meus olhos.

— Foi. – não consegui mentir – Mas eu tô legal.

Não. Eu não estava legal e sabia disso. Mike também sabia disso. Além de suar frio, minhas mãos não paravam de tremer, porém, ele percebeu que eu não queria falar sobre o assunto e respeitou minha privacidade. Se havia alguma coisa que Mike sabia fazer era respeitar a privacidade alheia. Parecia até que ele andava com um desconfiômetro no bolso. Hesitou um pouco para se retirar, mas enfim, se retirou. Só que antes segurou minhas mãos trêmulas e disse para eu relaxar.

Relaxar. Será que eu sabia o que era isso? Acho que eu nunca soube o que é relaxar em toda a minha vida. Talvez porque sempre fui uma pessoa muito enérgica, não importa se estou triste ou feliz, sempre escuto alguém me dizendo: “Relaxe, Allan”. Em casa, na escola, no cinema e até nas aulas de guitarra onde o barulho daqueles parasitas tentando tocar é infernal, exceto eu… Certo, certo, não sou nenhum Jimi Hendrix, mas pelo menos não corro o risco de estourar os tímpanos dos outros!

Pulei da cama quando ouvi o grito estridente de mamãe ecoar da cozinha: “Allan, seu animal, anda logo antes que se atrase!”

Odeio quando me chamam de animal. Só que dessa vez não retruquei. Não queria começar o dia com uma discussão. Levantei a coberta, estava completamente nu, era assim que costumava dormir e achei que não seria conveniente manter esse hábito se tivesse pesadelos com freqüência. Dessa vez tive sorte de estar coberto, mas nunca se sabe o dia de amanhã. Enfiei uma camiseta e um jeans. Não costumo usar cuecas também, na minha opinião, cueca sempre foi coisa de yuppie. No começo foi difícil, me assava todo, porém, com o tempo fui me acostumando.

Com os pés descalços fui até o banheiro lavar o rosto e escovar os dentes. Dei de cara comigo no espelho e meus olhos aquele dia estavam azuis. Meus olhos são uma espécie de olhos mutantes, você nunca sabe de que cor eles vão estar no dia seguinte, ás vezes estão verdes, ás vezes azuis e pasmem! Ás vezes estão cinzas. Quando amanhecem cinzas não tenho vontade sequer de botar a cara pra fora de casa. É muito esquisito, não parece olho de ser humano. Dei um sorriso (dessa vez não foi forçado), adorava quando amanheciam azuis.

Iniciei um auto-exame estético e concluí que as mulheres deveriam me considerar um cara bonito. Sou alto, tenho um metro e setenta e três de altura (certo, certo, não tão alto, mas também não nanico!), um cabelo decente, longo, bem liso e fininho, ruivo, com uma franja um tanto longa jogada pro lado esquerdo do rosto que é um charme. Sou ruivo mas não desses ruivos todos pintados de sardas, sempre tive uma pele bonita, tá certo, bem branca, mas pelo menos limpa, bonita. Não possuía uma espinha sequer! Nada mal para um adolescente de dezessete anos. A maioria dos meus colegas pareciam uns abacaxis. A única coisa que nunca curti em meu rosto é minha barba, que é a cor do meu cabelo. Nunca deixava ela crescer, se pudesse faria uma depilação com cera para sossegar pelo menos durante um mês. Outra coisa que nunca foi muito legal no meu rosto também é o meu nariz. Ele não é o tamanho padrão da estética, mas para os poucos observadores sempre passou despercebido. De um modo geral, definitivamente, eu era um cara bonito.

Resolvi deixar o narcisismo de lado e voltei para o meu quarto. Olhei no relógio e deduzi que ia chegar atrasado. Ótimo, a primeira aula era de Geografia e eu odiava aquela professora com cara de queijo. Então me lembrei que odiava ainda mais o grito histérico da minha mãe e resolvi me apressar.

Minhas mãos continuavam tremendo e ainda não acredito que me peguei falando a mim mesmo: “Relaxe, Allan”. Foi só um pesadelo e já tinha acabado.

O que eu não imaginava é que estava apenas começando.

2 comentários:

-lady@ disse...

Parabéns,este blog está fantástico..=D

mcf disse...

Agradeço o elogio. E continue acompanhando, pois muitas coisas ainda vão desenrolar.