Chegamos uns quinze minutos atrasados, todo o pessoal já estava na sala de aula. Fomos até o corredor apanhar nossos materiais. Eddie entrou antes de mim, parecia um pouco tenso. Pudera, ter que encontrar Helouise depois de todas as asneiras que falei. Eu estava tenso por causa de Tina. Fazer o quê? Agora era responsabilidade minha arcar com as próprias conseqüências que causei. Rumei para a minha classe que era uma das últimas portas. Meus passos lentos e desordenados ecoaram no corredor. Naqueles segundos pude experimentar a sensação dos que atravessam o corredor da morte.
Parei em frente à porta. A cara de queijo já estava em ação no quadro-negro e nem percebeu a minha presença. Ótimo. Isso significava que não levaria uma bronca. Resolvi entrar de fininho e me acomodar em qualquer canto. A classe estava toda em silêncio copiando o que a bruxa escrevia. Uma tarefa realmente difícil já que a megera tinha uma caligrafia tão feia quanto a sua cara.
O silêncio foi rompido. O responsável? Eu. Meu estado de nervos estava tão abalado que eu parecia uma barata após uma chinelada e não enxerguei uma cadeira que cruzava meu caminho. Resultado: meu tropeção foi tão barulhento que a atenção de todos voltou-se para mim. Pronto. Já tinha dado minha entrada triunfal!
Pude ouvir o asqueroso: “Há-há! Isso são horas de chegar, Allan Vinny Sands?”
A cara de queijo não dava um tempo mesmo. Quando me viu, na hora largou o que estava fazendo e correu para o seu diário me arrancar mais um ponto em Geografia que possuía. Um dos poucos que possuía… se é que possuía! Ás vezes tinha a impressão de que aquilo era só teatro. Pelos meus cálculos não havia mais nem um ponto a ser descontado.
Após o sermão que ocupou quase todo o seu horário, a cara de queijo retornou ao quadro-negro. Como aquela mulher era desprezível com seu rabo-de-cavalo ruivo e sua magreza doentia! Se eu pudesse agarraria aquele pescoço branco e fino cheio de veias e não largaria até que estourasse uma por uma. A desgraça de chegar atrasado na aula de geografia é que o único lugar que sobrava era o colado na mesa da peste, ninguém ousava ocupar esse lugar por livre e espontânea vontade. Como não tive outra escolha…
Peguei papel e caneta e tratei de copiar aquela baboseira. Percebi que alguns ainda olhavam pra mim e fiquei pouco à vontade. Não sabia se era por causa do meu atraso ou por causa do vexame da noite anterior. Os boatos corriam soltos naquela escola e as línguas malvadas sempre aumentavam alguma coisa. Nesse caso não sei havia alguma coisa para aumentar. Era o tipo de escândalo que qualquer fofoqueiro sonharia, além de ser “quente”, não precisaria fazer esforço nenhum para alterá-lo e ficar “emocionante”. Bastava contar detalhadamente para o receptor ficar boquiaberto.
Totalmente acanhado, eu só olhava para frente e grudei os olhos no quadro-negro e no papel como se fossem a coisa mais importante do mundo. Minha letra saiu ilegível. Criei um pouco de coragem e olhei para a última carteira da última fila à minha esquerda. Helouise estava lá. Não dava pra acreditar que tinha agarrado uma garota tão bonita e ter me esquecido totalmente. Parecia piada.
Foi a primeira pessoa que arrisquei encarar porque tinha certeza que não ia encarar. Helouise no meio das aulas parecia entrar em transe, ficava dormindo acordada, parecia uma alienada mental mordendo a tampa da caneta e olhando sabe-se lá pra onde. Nem notou a minha presença, aliás, acho que não notava a presença de ninguém ali. Poderia entrar o Elvis Presley cantando “Kiss Me Quick” no meio da sala que ela nem perceberia.
Olhei pro outro lado e dei de cara com Jonathan e seu topete louro estilo “Beverly Hills
A manhã passou sem muitos acontecimentos, a não ser nos intervalos de uma aula pra outra que eu ouvia alguns comentários vagos ao meu respeito. Nada que pudesse me afetar. Procurei me manter o mais afastado possível das pessoas para evitar aborrecimentos, mas acho que isso chamou ainda mais a atenção. Estava agindo como um animal acuado e, era como me sentia de fato.
Na hora da saída Eddie encontrou um de seus amigos punks que diziam estar com novidades musicais do gênero. Quando isso acontecia, ele ficava louco. Acho que se sua mãe estivesse tendo um infarto na rua e no meio do caminho pro hospital desse de cara com um desses amigos e eles lhe dissessem que possuíam algum material novo dos Ramones ou algo raro dos Stooges, ele deixaria a velha se estrebuchando no meio do asfalto sem socorro e correria atrás dos caras. Então, inevitavelmente, ele me deixou. Não posso reclamar, bem que ele me convidou pra ir junto, mas eu não quis. A última vez que saí com esses malucos quase tive um troço. Eles dirigiam numa velocidade que quase perdi meu fígado… Não, de novo não. Agradeço.
Preferi voltar pra casa a pé. Eu poderia estar com sérios problemas mas ainda zelava por minha vida. Minha casa não ficava muito longe mesmo e afinal de contas, seria até bom caminhar para arejar a cabeça, ignorando os conselhos de mamãe que dizia ser perigoso eu caminhar sozinho assim. É que geralmente quando ficava preocupado, ficava também muito desligado. No momento que fui atravessar a rua pude comprovar que ela estava certa. Por pouco um carro não me atropela, se o cara não fosse um atencioso motorista e não tivesse freado a tempo, eu já era. O engraçado é que nem senti o típico friozinho na barriga. O carro freou e eu simplesmente passei.
Todo o tempo não conseguia parar de pensar
Definitivamente… minha manhã tinha sido bem diferente das de costume. É certo que também não colaborei e fiquei trancafiado na classe, com a bunda colada na cadeira a maior parte do tempo, mas acho que, se eu agisse de outro jeito não iria mudar muita coisa. Eu não estava legal. Tina nem veio falar comigo, nem sequer me cumprimentou… e por que deveria?
Faltava mais ou menos um quarteirão para chegar em casa quando ouvi o barulho de alguém batendo forte o solado do tênis na calçada (provavelmente correndo) e uma voz feminina gritando pelo meu nome. O friozinho na barriga já me atacou quando a imagem de Tina surgiu na tela de minha mente, parei e engoli
Estava há alguns metros de mim, correndo e sacudindo seus longos cachos ruivos. Senti uma certa tristeza por não ser Tina, mas confesso que um certo alívio também. Covardia? Pode ser.
— O que há com você, Allan? – disse logo que me alcançou – Ficou isolado o tempo todo na classe, nem falou comigo.
E agora? O que eu poderia responder? Estava evitando chegar perto dela, só não imaginava que notasse. Ela notou e eu estava ferrado.
— Briguei com Tina. – em seguida desconfiei que havia falado bosta, mas não dava pra voltar atrás e não me veio nem uma desculpa na hora.
— Isso eu sei. Você me disse ontem. – ela falou com uma naturalidade impressionante.
— Ontem?!! – esbugalhei os olhos.
— É, ontem, quando nós ficamos juntos. – sua naturalidade não se alterava.
A pressão na qual estava submetido piorava cada vez mais. Não sei se o que dizia era verdade ou estava apenas blefando. É claro que ela podia fazer isso. Eu não me lembrava de nada mesmo. Poderiam dizer que estive na casa do presidente da república que eu acreditaria. Só que havia um pequeno detalhe: será que ela sabia disso? Não, eu deveria ter dito mesmo. Ninguém se arriscaria a mentir assim, na cara dura, e ela não tinha cara de quem estava mentindo. Quando alguém mentia pra mim eu podia perceber a quilômetros de distância.
O que deveria dizer? A verdade? Chegar pra garota e dizer: “Olha garota, o negócio é o seguinte, tudo o que eu disse e fiz ontem não dá pra ser levado
Fiquei ali parado, com cara de bobo, ouvindo o ruído dos carros que passava e olhando pra ela. Examinei-a detalhadamente. O jeans e o top justos marcavam as curvas do corpinho mignón, os cabelos ruivos balançando sem parar contra o vento forte, o nariz sardentinho, o jeito com que segurava os livros, apertando-os contra os seios. Seios lindos e tão sardentinhos quanto o nariz que, possivelmente teria os tocado na noite anterior. Só de imaginar… tive uma ereção!
Aquilo me acordou. Dei um sorrisinho meio sem graça, sorte que ela nem percebeu o que estava ocorrendo. Apenas me olhava com aqueles olhinhos verdes ansiosos por uma resposta. Resposta? Ah, claro, a resposta!
— Bem, desculpa não ter falado com você. É que, como você pôde notar, eu fiquei o tempo todo na classe. Estava e ainda estou com uma dor de cabeça terrível. – isso era verdade.
— Puxa, isso é triste. Só eu sei como é triste. Já tive cada enxaqueca horrível!
— Pois é… - dei outro sorriso forçado. Não via a hora de me livrar dessa guria e chegar em casa.
— Acho que precisamos conversar sobre o que aconteceu entre nós ontem à noite, na lanchonete.
— Conversar? – minha cabeça estava mais distante dali do que Plutão do Sol – Oh, sim, claro… conversar.
A garota não se mancava mesmo! Minha cabeça latejava tanto que estava prestes a explodir e ela ainda vinha com esse papo de conversar? Conversar, conversar… como as mulheres gostam de conversar! Mania desgraçada que elas tem de querer conversar sobre tudo. Se um passarinho passa voando e faz cocô na cabeça de alguém já é um bom motivo para quererem conversar. Que saco! Concordo que o dialogo é importante, mas as mulheres são simplesmente obcecadas por ele. Muitas vezes é bom dialogar, mas muitas vezes também você só deseja… ficar em paz! E naquele momento era tudo o que eu queria!
— E então? – já tratou de começar a “conversa”.
— E então o quê? – minha falta de interesse era impressionante…
— Qual o seu ponto de vista sobre o que houve entre nós? -… mas ela não notou.
— Sobre o que houve entre nós? Mas não houve nada entre nós! – achei melhor cortar o mal pela raiz – E acho que não temos nada para conversar. Olha Helouise, minha cabeça tá estourando de dor e tudo o que eu quero é ir pra casa.
— Tudo bem. – sorriu – Então depois a gente conversa sobre o que aconteceu.
— Mas não aconteceu nada! – já estava me irritando – Nós apenas ficamos juntos numa lanchonete, não saímos de lá, portanto não aconteceu nada! – fiz questão de insistir nesse ponto.
— Tá certo. Não aconteceu nada. – em seguida aproximou-se e tocou em meus ombros de uma maneira insinuante – Mas pode acontecer. – disse próximo ao meu ouvido, sua voz também soava insinuante.
Então me deu um beijo. Não sei se posso chamar aquilo de beijo, ela roçou seus lábios nos meus de um jeito tão provocante que cheguei a pensar que meu genital jamais voltaria ao normal e se mandou.
Fiquei atônito, observando aquela figura feminina desaparecer de minha visão. E prossegui minha caminhada e então fiquei pensando… decerto eu tinha alugado muito a garota para que adquirisse toda essa autoconfiança. Só podia ser isso. Nunca vi tanta ousadia! Talvez estivesse errado e sua personalidade fosse assim mesmo. Talvez ela agisse desse jeito por não ter nada a perder, era bonita, inteligente e cobiçada pra caramba no colégio. Se eu não a quisesse, sabia que havia dezoito na primeira esquina à sua espera.
Como essa vida é engraçada! Tinha uns quinhentos caras (entre eles o Eddie) que seriam capazes de vender a alma pro diabo para estarem no meu lugar e terem a oportunidade que estava em minhas mãos e que estava jogando fora. Seria hipocrisia de minha parte dizer que Helouise não me atraía, mas minha mente não se desligava de Tina. Eu só queria saber dela. Se meu coração estivesse desocupado, provavelmente cederia aos apelos de Helouise, talvez… Acho que namorar uma garota como Helouise é fria. Não pelo fato de ser como era, e sim, pelo fato de ser uma garota popular. Não sei se teria estrutura para levar adiante um namoro como este, sempre fui muito ciumento… Helouise não era como as outras, como diria Mike, era única. A maneira que me abordou sei lá… aquilo tudo era muito novo pra mim. Com todas as meninas que me relacionei sempre eu tive que tomar a iniciativa e naquele dia a caça fui eu e a caçadora, ela. Que coisa mais interessante!